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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Opinião: "A Pousada da Jamaica"

Título original: Jamaica Inn
Autor: Daphne du Maurier
Tradutor: Eduardo Saló
Colecção: Obras Literárias Escolhidas nº 12
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Março de 2010
ISBN: 9789722343138
Páginas: 288

Sinopse: A Pousada da Jamaica é uma obra-prima do romance de mistério, que se passa na Cornualha no ano de 1820. Mary Yellan, uma jovem de vinte e três anos, vê-se obrigada, após a morte da mãe, a ir viver com uma tia num local ermo e isolado onde esta, juntamente com o marido, explora a Pousada da Jamaica. Mas Joss Merlyn, o marido da tia Patience, é um homem obscuro e violento, e uma atmosfera ameaçadora e sinistra envolve aquele lugar. Suspense, paixão e aventura numa obra reveladora da capacidade única de Du Maurier para captar o espírito perturbador, quase sobrenatural, dos locais que elege como cenário dos seus romances.

A minha opinião: Há uns anos li Rebecca da autora e foi um livro que me marcou, de tal forma que por vezes dou por mim a relembrar a sua história. Por isso tinha muita vontade de ler outro livro da autora e aproveitei o facto de A Pousada da Jamaica ser uma das opções da Comunidade de Leitores para o ler. Infelizmente, talvez tivesse as expectativas demasiado elevadas, pois não gostei tanto como estava à espera...

A história passa-se em 1820, na Cornualha. Mary Yellan encontra-se numa carruagem a caminho da Pousada da Jamaica, cumprindo o último desejo da sua mãe de que procure a sua tia Patience e viva com ela. Mas quando Mary anuncia para onde se dirige, a reacção dos passageiros é, no mínimo peculiar. E até o cocheiro a tenta convencer a ir para outro local, recusando-se a entrar na pousada quando ela não se deixa dissuadir.

Aparentemente o homem com quem a sua tia casou, Joss Merlyn, não é flor que se cheire e ninguém gosta dele nas redondezas. Mas Mary não podia imaginar o quanto a influência nefasta dele iria afectar a sua vida, tal como obviamente tinha afectado a da sua tia, actualmente uma sombra da mulher que Mary tinha conhecido.

Rapidamente Mary se apercebe de que o tio se dedica a negócios escuros na pousada e a sua consciência demanda que procure ajuda para si e para a sua tia, para que ambas possam afastar-se dele e da pousada e viver uma vida digna e respeitável.

E quem melhor do que o pároco da região, Francis Davy, para a ajudar? E há ainda o irmão de Joss, Jem Merlyn, ele próprio um auto-proclamado canalha, mas por quem Mary sente uma imensa e inexplicável atracção. A razão diz-lhe para se aproximar de Francis, mas o coração diz-lhe para se aproximar de Jem. A quem irá Mary dar ouvidos?

A Pousada da Jamaica é um clássico da literatura gótica e todo o ambiente do livro é muito opressivo e claustrofóbico e, tal como a Mary, nunca sabemos muito bem o que se passa, nem em quem podemos confiar. As descrições dos cenários são vívidas e quase que consegui ver o nevoeiro e sentir os cheiros das charnecas. Mas a verdade é que nunca me consegui relacionar com a Mary e, talvez por isso, não me envolvi com a história como gostaria. Na verdade, demorei um mês para ler o livro (fui lendo outras coisas pelo meio) o que para mim é bastante raro.

Não deixa de ser uma boa leitura que vale sobretudo pelo cenário, mas cujas personagens deixam um pouco a desejar, na minha opinião.

Classificação: 3

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Este livro conta para o Desafio What's in a Name? 2016 (Country)

domingo, 26 de abril de 2015

Opinião: "A Elegância do Ouriço"

www.wook.pt/ficha/a-elegancia-do-ourico/a/id/1218171?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Título original: L'élégance du hérisson
Autor: Muriel Barbery
Tradutor: Maria Jorge Vilar de Figueiredo
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Dezembro de 2008
ISBN: 9789722340519
Páginas: 280

Sinopse: Este romance contado a duas vozes alternadas decorre num edifício situado num bairro rico de Paris e habitado por uma burguesia rica e snobe. Renée é uma porteira de 54 anos, cultíssima, autodidacta e apaixonada pela pintura naturalista holandesa, pela filosofia, por Tolstoi, pelo cinema japonês e uma devoradora de livros. Porém esconde-se por detrás da figura humilde que todos esperam ver numa porteira e fá-lo com um humorismo que tem o seu quê de satírico. Paloma é uma adolescente superdotada de 12 anos, intensamente consciente da vacuidade do destino que a espera. Também ela se esforça por esconder a sua inteligência e o olhar crítico e lúcido que tem sobre o mundo e sobre a elite a que pertence. Esta jovem tem um objectivo: suicidar-se no dia em que completar treze anos. Tudo isso mudará com a chegada de um japonês, o senhor Ozu, que depressa desmascara Renée e integra Paloma num pequeno trio que terá para todos um papel redentor.

A minha opinião: Este pequeno livro é uma absoluta delícia! Foi recomendado por uma colega da Comunidade de Leitores, por isso as expectativas eram elevadas, mas felizmente, foram superadas!

A história centra-se nos moradores do nº 7 da Rue de Grenelle, um edifício duma zona chique de Paris, e é-nos contado do ponto de vista de Renée, a porteira do prédio, e Paloma, uma jovem de 12 anos moradora do prédio. Ambas são muito mais do que aquilo que aparentam e as suas descrições e análises dos moradores do prédio e da sociedade em geral são, simultaneamente, acutilantes e hilariantes.

Renée tem 54 anos e toda a vida fingiu ser apenas aquilo que esperam que seja. Presentemente, isso significa fingir ser apenas a simplória porteira. Na verdade, ela é uma mulher culta, interessante e interessada, que lê tratados de filosofia, ouve música clássica, vê filmes japoneses e conhece a pintura holandesa.

Paloma tem 12 anos e finge ser uma miúda normal, quando na verdade é sobredotada. Dolorosamente consciente das contradições e injustiças do mundo. E, reconhecendo-as na sua própria família, está determinada a atear fogo ao apartamento e suicidar-se no dia do seu 13º aniversário. Para os outros parece uma miúda estranha, e nem a família a compreende, mas na realidade é apenas uma miúda extremamente inteligente, observadora e introvertida.

A vida no prédio é subitamente alterada com a chegada do novo inquilino, o senhor Ozu. Para começar, o senhor Ozu não liga nenhuma à hierarquia vigente e não passa cartão aos vizinhos. Mas depressa se apercebe da realidade em relação a Renée e a Paloma e inicia-se uma amizade entre os três que os mudará para sempre.

É uma história que alerta para o perigo dos estereótipos, de como por vezes temos tendência a catalogar as pessoas de acordo com as suas funções, ou com a sua idade ou com as expectativas que temos delas, e de como, ao fazê-lo, podemos acabar por perder a oportunidade de conhecer e interagir com pessoas fantásticas e com as quais podemos aprender tanto...

Adorei esta história e eu que até nem sou muito de apontar citações, apontei imensas. A escrita da autora é belíssima e a sua análise da sociedade francesa, efectuada através dos pontos de vista de Renée e Paloma é bastante acutilante. E a caracterização de Manuela, a mulher-a-dias portuguesa é fantástica!

Gostava muito de ler outras obras da autora, mas infelizmente não há mais nenhuma traduzida para português...

Classificação: 5

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Este livro conta para o Desafio What's in a Name? 2015 (animal)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Opinião: "Cidades de Papel"

www.wook.pt/ficha/cidades-de-papel/a/id/15692826?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Título original: Paper Towns
Autor: John Green
Tradutor: António Carlos Andrade
Colecção: Noites Claras nº 16
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Fevereiro de 2013
ISBN: 9789722349963
Páginas: 344

Sinopse: Quentin Jacobsen e Margo Roth Spiegelman são vizinhos e amigos de infância, mas há vários anos que não convivem de perto. As suas personalidades não podiam ser mais opostas, e foram justamente a irreverência e o espírito de aventura de Margo que sempre seduziram um Quentin muito mais tímido e reservado. Agora que se reencontraram, nas vésperas do baile de finalistas da escola que ambos frequentam, as velhas cumplicidades são reavivadas, e Margot consegue convencer Quentin a segui-la num engenhoso esquema de vingança. Mas Margot, sempre misteriosa, desaparece inesperadamente, deixando a Quentin uma série de elaboradas pistas que ele terá de descodificar se quiser alguma vez voltar a vê-la. Mas quanto mais perto Quentin está de a encontrar, mais se apercebe de que desconhece quem é verdadeiramente a enigmática Margot. Um romance entusiasmante, sobre a liberdade, o amor e o fim da adolescência.

A minha opinião: Cidades de Papel foi a minha estreia com o autor John Green e tinha muita curiosidade em ler algo dele, sobretudo porque o sigo no twitter e no tumblr e ele tem um sentido de humor fantástico. Que, felizmente, transparece nesta história.

A história é-nos contada na primeira pessoa, e sempre na perspectiva de Quentin Jacobsen, Q para os amigos, e começa quando ele e a sua vizinha e amiga Margo Roth Spiegelman têm ambos 9 anos e, ao deambularem pelas ruas da urbanização onde vivem, encontram um cadáver, de um homem que se havia suicidado. Este é um acontecimento que os marca e os define, como se prova adiante.

No presente, Q é finalista do secundário e já entrou na faculdade e no curso que queria. Actualmente dá-se com os miúdos da Banda, pese embora não pertença à mesma, mas já não se dá com Margo Roth Spiegelman, que é agora uma das miúdas fixes. Claro que, para Q, ela é A miúda, pois o fraquinho que tinha por ela em miúdo não diminuiu nem um bocadinho com o passar do tempo.

Numa noite como tantas outras, Margo Roth Spiegelman surge à janela do quarto de Q, como costumava fazer quando eram miúdos, e pede-lhe que lhe dê boleia pois tem uma lista de 11 coisas a fazer essa noite e o seu pai tirou-lhe a chave do carro. Q acaba por concordar e acompanha Margo Roth Spiegelman no concretizar de uma série de tarefas cujo objectivo vai da vingança ao perdão, passando por um reconectar com Q, principalmente quando o leva ao topo de um edifício de onde têm uma vista privilegiada das cidades de papel, que é como Margo Roth Spiegelman chama às urbanizações que pululam por todo o lado nos subúrbios das cidades. Ao final da noite, Q têm esperança que o pouco tempo de secundário que lhes resta será diferente.

Mas, no dia seguinte, Margo Roth Spiegelman desapareceu. E se, ao início, ninguém parece dar muita importância ao facto (até porque já o havia feito várias vezes antes), a última noite que passou com ela e que, agora, começa a parecer-se bastante com a noite em que resolveu os seus assuntos inacabados, faz com que Q tema que Margo Roth Spiegelman tenha desaparecido para se suicidar. E, porque esta deixou pistas sobre o seu paradeiro, fica obcecado em encontrá-la.

Nessa sua cruzada, acaba por, inadvertidamente, destruir o fosso entre miúdos fixes e miúdos não fixes e por perceber muito sobre Margo Roth Spiegelman, sobre os seus amigos e sobre si próprio.

Gostei bastante da história, mas gostei ainda mais da escrita do autor. Os diálogos são fantásticos, assim como fantásticos são também alguns dos monólogos interiores de Q. É uma história sobre crescer, aceitar e lidar com a mudança, mas é sobretudo, a meu ver, uma história sobre amizade. Pois embora os supostos amigos de Margo Roth Spiegelman se tenham vindo a revelar completamente falsos (com uma excepção), os amigos de Q estiveram sempre lá para ele, ajudando-o na sua busca, mesmo que por vezes não a compreendessem. Por que é isso que os amigos fazem, ajudam-se uns aos outros, mesmo que às vezes não compreendam o porquê.

Uma nota final só para dizer que achei a revelação final do que são as cidades de papel completamente deliciosa, até porque a desconhecia. E fiquei curiosa por saber se em Portugal também existirão cidades de papel...

Classificação: 4

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2014, TBR Pile 2014 e Monthly Motif Challenge 2014 (A Long Journey).

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Opinião: "O Perfume - História de um assassino"

www.wook.pt/ficha/o-perfume/a/id/45978?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Título original: Das Parfum: Die Geschichte eines Mörders
Autor: Patrick Süskind
Tradutor: Maria Emília Ferros Moura
Colecção: Grandes Narrativas nº 12
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Abril de 2007
ISBN: 9789722314480
Páginas: 276

Sinopse: Esta estranha história passa-se no século XVIII e é fruto de um extraordinário trabalho de reconstituição histórica que consegue captar plenamente os ambientes da época tal como as mentalidades. O protagonista é um artesão especializado no ofício de perfumista, e essa arte constitui para ele – nascido no meio dos nauseabundos odores de um mercado de rua – uma alquímica busca do Absoluto. O perfume supremo será para ele uma forma de alcançar o Belo e, nessa demanda nada o detém, nem mesmo os crimes mais hediondos, que fazem dele um ser monstruoso aos nossos olhos. Jean-Baptiste Grenouille possui no entanto uma incorrupta pureza que exerce um forte fascínio sobre o leitor. O Perfume, publicado em 1985, de um autor então quase desconhecido, foi considerado um dos mais importantes romances da década e nunca mais deixou de ser reeditado desde então, totalizando os 4 milhões de exemplares vendidos, só na Alemanha, e 15 milhões em países estrangeiros. Foi traduzido em 42 línguas. Este fenómeno transformou-o num dos mais importantes livros de culto de sempre. Em 2006, O Perfume passa a ser uma longa-metragem inspirada no romance de Patrick Süskind.

A minha opinião: Esta leitura foi o perfeito exemplo do perigo das expectativas... É que eu tinha muitas em relação a este livro, mas estas não se cumpriram. É que a história que eu tinha idealizado não correspondeu à história do livro, e não pude deixar de me sentir um pouquinho desiludida. E sim, eu sei que a culpa é inteiramente minha, mas não posso  fazer nada para mudar isso...

Acho que a melhor forma de falar sobre o livro é comentando cada uma das quatro partes em que se divide. A primeira foi a minha favorita, posso mesmo afirmar que estava a adorar conhecer o protagonista, Grenouille, uma criatura repugnante, altamente manipuladora, com um sentido de olfacto apuradíssimo, assim como apurado é o seu instinto de sobrevivência que faz com que se adapte aquilo que dele é esperado na altura. O pormenor do rasto de morte que o segue sempre que alguém deixa de lhe ser útil (sempre nas situações mais caricatas, mas sem que tenha tido qualquer participação directa nas mortes) é fantástico, e a forma como explora a cidade de Paris através do seu olfacto é tão perturbadora quanto maravilhosa (como devem imaginar, Paris no século XVIII não cheirava propriamente a rosas...). E depois há a descoberta d'O Perfume, que é emanado por uma jovem ruiva e cuja busca e posse passa a ser o seu objectivo de vida. Claro que, sendo ele uma criatura perfeitamente amoral, recorrer ao homicídio para atingir esse objectivo nem sequer o faz pensar duas vezes...

E a primeira coisa a fazer, na perseguição da sua demanda, é aprender a arte da extracção de perfumes, o que consegue tornando-se aprendiz de um famoso perfumista parisiense. A primeira parte da história termina quando Grenouille parte para Grasse com o objectivo de aprender outras formas de extracção de perfumes. E até aqui estava mesmo a adorar, mas eis que começa a segunda parte e parece que estou a ler um livro completamente diferente... É que, à medida que se afasta de Paris e se embrenha no campo, começa a experienciar a ausência dos cheiros humanos e acaba a viver sete anos numa montanha, isolado de tudo e de todos, a alimentar-se de répteis e a lamber água de uma rocha. E foi aqui que a história se perdeu para mim... Não consegui perceber o porquê desta interrupção, nem das revelações que teve, até porque a sua missão já estava definida. A sério, nada contra histórias com experiências de isolamento, em que os personagens se redefinem e voltam a encontrar um propósito na vida, mas não achei que, nesta história em concreto, fosse necessário. E teve o condão de me ter irritado de tal forma, que já não consegui "reentrar" na história de forma satisfatória...

Ora bem, depois desta pausa de sete anos (completamente desnecessária, na minha humilde opinião...), o que é que o protagonista faz? Retoma o objectivo que tinha quando saiu de Paris, tornar-se aprendiz em Grasse (estão a ver porque é que digo que a pausa foi desnecessária?) e aí aprender a extrair os perfumes mais delicados. E é também aí que volta a sentir O Perfume, o que o leva a cometer uma série de assassinatos, nos quais extrai a essência dos cadáveres de jovens mulheres, por forma a conseguir possuí-lo finalmente. Também nesta parte fiquei um pouquinho desapontada, pois gostaria que os assassinatos e o ritual da extracção do perfume tivessem sido descritos com mais pormenor, mas, na maioria dos casos, o autor limita-se a referir que mais uma rapariga apareceu morta...

Em jeito de conclusão, adorei a primeira parte, todas as descrições dos cheiros e dos perfumes são deliciosas (mesmo quando descrevem cheiros nauseabundos), adorei a ideia da demanda pela posse d'O Perfume, mas achei a segunda parte completamente desnecessária, e gostava que tivesse havido mais pormenor na descrição das mortes. Quando a história finalmente retoma o rumo, já não me entusiasmou da mesma forma, apesar de ter gostado também do final.

Classificação: 3

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2014 e TBR Pile 2014.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Opinião: "A Rapariga Que Roubava Livros"

www.wook.pt/ficha/a-rapariga-que-roubava-livros/a/id/201084?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Título original: The Book Thief
Autor: Markus Zusak
Tradutor:
Colecção: Grandes Narrativas nº 385
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Setembro de 2010
ISBN: 9789722339070
Páginas: 468

Sinopse: Molching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial. Na Rua Himmel as pessoas vivem um dia-a-dia penoso, sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte, narradora omnipresente e omnisciente, cansada de recolher almas, observa com compaixão e fascínio a estranha natureza dos humanos. Através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais adoptivos, Hans, o pintor acordeonista de olhos de prata, e Rosa, a mulher com cara de cartão amarrotado, do pequeno Rudy, cujo herói era o atleta negro Jesse Owen, e de Max, o pugilista judeu, que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann e que escreveu e ilustrou livros, para oferecer à rapariga que roubava livros, sobre as páginas de Mein Kampf recuperadas com tinta branca, ou ainda a história da mulher que convidou Liesel a frequentar a sua biblioteca, enquanto os nazis queimavam livros proibidos em grandes fogueiras. Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.

A minha opinião: Confesso que tinha algum receio de ler este livro. Todas as opiniões que lia e ouvia indicavam que, se por um lado, esta seria uma história de que iria gostar muito, por outro, o seu potencial esmagador era enorme... Não me enganei, adorei e chorei descontroladamente no final, mas estou muito contente por o ter lido.

A Rapariga Que Roubava Livros passa-se num subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial, e é narrado pela Morte. Sim, essa mesmo, a verdadeira, que trabalhou intensamente na época e que é, possivelmente, a personagem mais humana do livro. Isto porque, talvez devido ao distanciamento que tem, demonstra uma compaixão que faltou a tantos Homens naquela altura...

A perspectiva em que a história nos é contada é muito interessante e completamente nova para mim: é a perspectiva dos alemães comuns e prova que nem todos os alemães eram nazis ou se identificavam com a ideologia. Se muitos idolatravam o Führer e eram nazis convictos, muitos outros faziam o que era esperado deles para evitar represálias e alguns ainda, como o pai adoptivo de Liesel, recusaram até ao fim renunciar à sua humanidade e arriscaram a própria vida para ajudar os que não tinham qualquer esperança.

Para além da história e de todo o contexto histórico, a grande riqueza deste livro assenta nas suas personagens, ricas, complexas e extremamente bem caracterizadas. Começando pela rapariga que dá título ao livro, Liesel, que é levada pela mãe para Molching, onde irá ficar com uma família adoptiva, e cujo irmãozinho mais novo morre na viagem, episódio que a marca profundamente e que constitui o seu primeiro (mas, infelizmente, não o único) encontro com a Morte. É também o que despoleta a sua compulsão para roubar livros, uma vez que rouba o Manual do Coveiro durante o funeral do irmão, uma compulsão tornada ainda mais estranha pelo facto de Liesel não saber ler. Mas serão vários os livros que roubará ao longo da história...

Os seus pais adoptivos, Hans e Rosa Hubermann, personagens inesquecíveis, que ao início parecem tão diferentes, mas que afinal têm tanto em comum... Extremamente humanos e compassivos, apesar dos seus feitios completamente distintos, não só acolhem Liesel em sua casa e a tratam como uma filha, acolhem um judeu na cave durante meses, colocando em perigo a sua própria segurança apenas porque sabem que o que está a acontecer não está certo. Para mim, foi aqui que Rosa revelou as suas verdadeiras cores pois, apesar do mau feitio, de estar sempre a resmungar e a chamar nomes, aceitou sem hesitar acolher um judeu em sua casa apenas porque o seu marido havia feito uma promessa há muitos anos.

O judeu em questão é Max, que se torna quase como que um outro filho dos Hubermann e um amigo (praticamente um irmão) de Liesel. Apenas por ser judeu, Max é considerado sub-humano, mas com os Hubermann volta a sentir-se um homem, ainda que obrigado a viver escondido nas sombras, volta a ousar sentir esperança. E alimenta o vício de Liesel, escrevendo-lhe histórias nas páginas que arranca de uma cópia de Mein Kampf e pinta de branco.

E Rudy, o vizinho e melhor amigo de Liesel, que cresce com ela. O corajoso Rudy que idolatra um atleta negro numa sociedade que pretendia o triunfo da raça ariana, sempre pronto a defender os desprotegidos e tão precoce, que uma das coisas que mais almeja é um beijo de Liesel.

O equilíbrio precário de todas estas personagens, como é óbvio, não dura para sempre e algo tão banal como um simples gesto de compaixão e amor ao próximo, ou uma decisão tomada por amor paternal, acabam por despoletar situações dominó que culminarão de forma extremamente dolorosa no final.

Sinto que acabei por falar pouco dos livros que Liesel roubava, mas eles são muito importantes ao longo de toda a história, acabando por funcionar como uma tábua de salvação a que Liesel se agarra e que a ajudam a manter-se sã. E posso garantir que não há nada de fictício nisso...

Uma história fantástica e poderosíssima, sobre a importância de nos mantermos humanos mesmo nas piores condições e sobre o poder curativo dos livros, com personagens ricas e complexas que aprendemos a amar ou a odiar. Para aqueles que, como eu, ainda estão receosos em o ler, façam-no sem medos, mas leiam com um pacote de lenços à mão.

Classificação: 5

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2014 e TBR Pile 2014.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Opinião: "O Grande Gatsby"

www.wook.pt/ficha/o-grande-gatsby/a/id/45930?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Título original: The Great Gatsby
Autor: F. Scott Fitzgerald
Tradutor: José Rodrigues Miguéis
Colecção: Obras Literárias Escolhidas nº 16
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Maio de 2013
ISBN: 9789722313698
Páginas: 176

Sinopse: O Grande Gatsby, considerado a obra-prima de F. Scott Fitzgerald, tornou-se não só um clássico da literatura do século XX, como o retrato mais expressivo da «idade do jazz», em todo o seu esplendor e decadência. Jay Gatsby é o herói que personifica o materialismo obsessivo e o desencanto do pós-Primeira Guerra Mundial. Imensamente rico e desprovido de escrúpulos, Gatsby procura preencher o vazio que o domina tentando impressionar e assim conquistar Daisy Buchanan, por quem se apaixonara na sua juventude mas que entretanto casara com o milionário Tom Buchanan. No entanto, na sua busca do amor e da inocência perdidos, Gatsby encontra apenas o fim de um sonho. Esta edição de O Grande Gatsby foi traduzida e prefaciada por José Rodrigues Miguéis. 

A minha opinião: É fácil perceber porque O Grande Gatsby se tornou num clássico da literatura. É uma história que retrata na perfeição o período do pós-Primeira Guerra Mundial nos Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo é uma história intemporal, de amor, ilusão e desencanto.

A história é-nos narrada por Nick Carraway, vizinho de Jay Gatsby e primo de Daisy Buchanan e, por isso, inadvertidamente, acaba por se ver envolvido numa história que o mudará para sempre e que significará o final da sua inocência...

Gatsby e Daisy foram namorados em tempos, mas Daisy acabou por casar com o milionário Tom Buchanan, que por sua vez tem um caso com uma mulher casada. Gatsby nunca esqueceu Daisy e, agora que finalmente é, também ele, milionário, está decidido a reconquistá-la. E para isso dá festas opulentas e magnificentes na sua mansão que fica do outro lado da baía, mesmo em frente ao cais da casa de Daisy. As suas festas são o acontecimento da época e são frequentadas pela nata da sociedade. Mas na primeira vez que Nick vai a uma das festas descobre que praticamente ninguém conhece o anfitrião e que uma série de rumores circulam sobre o mesmo.

Graças a Nick, o reencontro entre Gatsby e Daisy acaba por se dar e a relação entre ambos é retomada. Mas a realidade nunca corresponde à expectativa e aos sonhos e planos que fazemos e esta história não é excepção. A obsessão de Gatsby por Daisy e por conseguir ter o futuro que lhe escapou no passado acaba por ter um final trágico. E é no final que vemos aquilo que, infelizmente, já todos sabemos: que é na infelicidade que os verdadeiros amigos se revelam. E é essa revelação que origina a catarse de Nick.

A edição que li contém também uma pequena biografia do autor e é impossível não perceber as semelhanças entre o mesmo e Gatsby (mas também com Nick, na sua percepção do desencanto com a realidade) e entre a sua mulher Zelda e Daisy.

Esta não foi uma opinião nada fácil de escrever e andou a ser adiada duas semanas... Mas ao escrevê-la finalmente, e ao reflectir sobre a história, acabei por me aperceber que gostei mais dela do que julguei inicialmente (passei a classificação de 3 para 4) e julgo que dificilmente a irei esquecer. O livro foi recentemente adaptado ao cinema e quero ver se não demoro muito a ver... 

Não sou muito de tomar nota de frases, mas não posso terminar sem deixar aqui uma frase da primeira página que me diz muito: 
Quando te sentires com vontade de criticar alguém, lembra-te disto: nem todos tiveram neste mundo as vantagens que tu tiveste.
Um lema pelo qual tento viver.

Classificação: 4

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domingo, 31 de março de 2013

Opinião: "Um Homem com Sorte"

Título original: The Lucky One
Autor: Nicholas Sparks
Tradutor: Saul Barata
Colecção: Grandes Narrativas nº 411
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Junho de 2010
ISBN: 9789722340380
Páginas: 288

Sinopse: Durante a maior parte da sua vida, Logan Thibault foi um homem que em tudo se podia considerar comum. Porém, nada de comum havia naquilo que estava prestes a acontecer-lhe. Quando encontra uma fotografia de uma mulher durante a guerra do Iraque, Logan Thibault passa, inexplicavelmente, a ser um homem com a sorte do seu lado, que sobrevive, sem ferimentos graves, a situações de indescritível perigo. A fotografia, que nunca ninguém chegou a reclamar, começa a ser encarada como um talismã e, de regresso aos EUA, Thibault não consegue deixar de pensar na mulher que lhe salvou a vida. Decidido a encontrá-la, percorre o país à sua procura, mas, assim que a encontra, desenrolar dos acontecimentos foge rapidamente ao seu controlo, e o segredo que transporta consigo poderá custar-lhe tudo aquilo que lhe é querido. Nicholas Sparks traz-nos neste romance uma sublime história sobre a força avassaladora do destino que se sobrepõe a tudo e dá sentido até aos momentos mais inexplicáveis da vida.

A minha opinião: Ler um livro de Nicholas Sparks é como assistir ao que gosto de chamar de filme de Domingo à tarde, geralmente romances (podem ser dramas ou comédias românticas) que não nos acrescentam muito, mas entretêm. E o autor não desilude mais uma vez. Este livro foi mesmo o que precisava depois de Outlander.

Em Um Homem com Sorte, Nicholas Sparks conta-nos uma história repartida pelo ponto de vista dos três personagens principais: Logan Thibault, um ex-militar com uma sorte fora do comum, uma vez que em todo o tempo que combateu no Iraque, nunca se feriu com gravidade, e cuja boa sorte foi atribuída pelos companheiros ao facto de manter consigo a fotografia de uma mulher que encontrou nas areias do deserto e que nunca foi reclamada; Beth Green, a mulher da fotografia; e Keith Clayton, o ex-marido de Beth.

Quando regressa aos Estados Unidos, Thibault empreende uma viagem pelo país em busca da mulher da fotografia e, quando a encontra, acaba por se apaixonar, não só por ela, mas por toda a sua família. Mas ela tem um ex-marido extremamente possessivo e habituado a levar sempre a sua adiante...

Também aqui surge aquilo que me parece ser imagem de marca do autor, a sensação de inevitabilidade do destino, de que os protagonistas são feitos um para o outro e destinados a ficar juntos, mas que aqui é ainda mais acentuada pelo pormenor da fotografia. A verdade é que resulta e o autor consegue criar um romance credível, ainda que saibamos que só acontece nos livros e nos filmes...

Um Homem com Sorte também já foi adaptado ao cinema (embora tenha dificuldade em imaginar o Zac Efron como Thibault) e, como me apercebi agora que ainda não vi as adaptações dos dois livros anteriores do autor que li, prevejo uma temporada de adaptações cinematográficas de livros de Nicholas Sparks para breve.

Classificação: 4

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Este livro conta para os Desafios Monthly Key Word Reading (luck), Mount TBR 2013Book Bingo 2013 (emprestado) e Spring Reading Thing 2013.

domingo, 11 de setembro de 2011

Opinião: "O Décimo Terceiro Conto"

Título original: The Thirteenth Tale
Autor: Diane Setterfield
Tradutor: Manuela Madureira
Colecção: Grandes Narrativas nº 351
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Abril de 2007
ISBN: 9789722337328
Páginas: 368

Sinopse: Vida Winter passou quase seis décadas a iludir jornalistas e admiradores acerca das suas origens, intrigando-os com histórias fantasiosas que mantiveram oculto o seu passado enigmático, tão enigmático como a sua primeira obra, intitulada Treze Contos de Mudança e Desespero, e que continha apenas doze. Porém, tudo isto pode estar prestes a mudar quando Margaret Lea, filha de um negociante de livros antigos e biógrafa amadora, recebe uma carta da famosa escritora convidando-a a redigir a sua biografia. Pela primeira vez, Vida Winter vai contar a verdade, a verdade acerca de uma família atormentada por segredos e cicatrizes. Mas poderá Margaret confiar totalmente nela? E terá sido ela eleita depositária das confidências por um motivo inocente? À medida que somos seduzidos pelo imaginário rico e intenso que rodeia a família Angelfield e que Vida Winter tece perante nós com a magia de uma verdadeira contadora de histórias, o passado invade o presente e temas como o isolamento, o abandono e a identidade emergem das sombras para dotar o derradeiro conto de um carácter apaixonante. Um romance assombroso, impregnado de ecos de A Paixão de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, que se tornou um bestseller imediato e que será publicado em mais de trinta línguas.

A minha opinião: Tenho muita dificuldade em escrever sobre os livros que me marcam, e este livro marcou-me. Marcou-me pela sua história, pelas suas personagens, e pelo facto da autora ter conseguido transmitir-nos o seu imenso amor pelos livros. Não tenho dúvidas que só alguém com um imenso amor pelos livros teria conseguido escrever esta história...

É uma história sobre famílias e os seus segredos, mas o que o torna tão especial é a forma como essa história é contada. É que os livros estão sempre presentes, pois mesmo quando não são explicitamente referidos, encontram-se sempre nos bastidores, sabemos que estão sempre lá, mesmo que não os vejamos.

É também a história de um mistério, o mistério sobre quem é Vida Winter realmente e quais os segredos do seu passado que justificaram a criação de uma nova identidade. Ah, e não posso esquecer o mistério do décimo terceiro conto, o conto mais famoso de Vida Winter apesar de nunca ter sido publicado e ninguém o ter alguma vez lido, e que, ao longo da história, várias personagens perguntam a Margaret se já sabe qual é. Achei esse pormenor delicioso!

As personagens são deliciosas, sobretudo Margaret. Como foi fácil identificar-me com ela, também eu sempre tive mais livros do que amigos... Mas também Vida Winter, Aurelius, Emmeline e Angeline, Missus e John-da-enxada, todos eles são personagens marcantes.

São referidos vários livros na história, alguns já li (Jane Eyre e O Monte dos Vendavais) outros não (A Mulher de Branco, O Castelo de Otranto, O Segredo de Lady Audley, A Noiva Espectral, Villette, Middlemarch, Shirley, Sensibilidade e Bom Senso), mas fiquei bastante curiosa por os ler.

Num ano que tem sido marcado por excelentes leituras, O Décimo Terceiro Conto é mais um livro a entrar na lista dos meus favoritos!

Classificação: 5

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Este livro conta para o Desafio Mystery & Suspense 2011.

domingo, 14 de agosto de 2011

Opinião: "A Mulher do Viajante no Tempo"

Título original: The Time Traveler's Wife
Autor: Audrey Niffenegger
Tradutor: Fernanda Pinto Rodrigues
Colecção: Grandes Narrativas nº 262
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Novembro de 2004
ISBN: 9789722332743
Páginas: 484

Sinopse: Audrey Niffenegger estreia-se na ficção com um primeiro romance prodigioso. Revelando uma concepção inovadora do fenómeno da viagem temporal, cria um enredo arrebatador, que alia a riqueza emocional a um apurado sentido do suspense. Este livro é, antes de mais, uma celebração do poder do amor sobre a tirania inflexível do tempo, que para Henry assume contornos estranhamente inusitados - Cronos preparou-lhe uma armadilha caprichosa que o faz viajar a seu bel-prazer para uma data e um local inesperados. Uma obra inesquecível, que retrata a luta pela sobrevivência do amor no oceano alteroso do tempo.

A minha opinião: Demorei imenso tempo a escrever a minha opinião sobre este livro porque tenho dificuldade em conseguir exprimir o quanto me tocou... Mesmo já tendo passado para a leitura seguinte, dou por mim a "remoer" na sua história e, por isso, tenho sérias dúvidas que consiga expressar convenientemente o quão especial este livro é para mim. Por outro lado, não quero revelar spoilers, o que dificulta ainda mais esta tarefa...

Para começar devo confessar que, apesar de já ter lido várias opiniões positivas sobre este livro, a sua sinopse e a sua estrutura (analepses e prolepses) deixaram-me um pouco de pé atrás... Nunca fui grande fã de ficção cientifica e estava com algum receio por causa das viagens no tempo. Felizmente os meus receios eram totalmente infundados e Audrey Niffenegger conquistou-me completamente! A Mulher do Viajante no Tempo conta-nos a história de um amor que resiste às provações do tempo (e nunca esta frase fez tanto sentido como neste caso...) entre Henry um homem normalíssimo se não fosse pelo facto de, espontaneamente, desaparecer do seu tempo presente e surgir no passado ou no futuro, e Claire a mulher que o conhece desde os seis anos (apesar de ele só a conhecer aos 28...). A história é-nos contada alternadamente pelo ponto de vista de Henry e de Claire e é assim que vamos conhecendo as opiniões, dúvidas e receios de ambos.

Foi impossível não me compadecer de Henry e de Claire, por motivos distintos. De Henry, porque viajar no tempo não era algo que desejasse e também não era algo que pudesse controlar, e porque revivia situações extremamente penosas sem puder fazer nada para as alterar... De Claire pelo sofrimento que cada uma das ausências de Henry lhe causavam, por nunca saber por quanto tempo Henry estaria ausente ou sequer se regressaria...

A autora foi exímia a unir os pontos, no sentido em que situações que tinham ficado por explicar acabaram por ser explicadas à medida que a narrativa avançava (ainda que a resolução pudesse ter sido resolvida no passado...), mas algumas situações nunca foram explicadas, com muita pena minha.

É um livro que deve ser lido com bastante atenção e com alguma continuidade para que determinados pormenores não nos passem despercebidos e para que as ligações entre passado e presente façam sentido.

Há muito tempo que não lia uma história de amor contemporânea que me marcasse desta forma, é um livro que vou reler com toda a certeza! E considerando que é o romance de estreia da autora, fiquei bastante curiosa para ler Uma Inquietante Simetria. É sem dúvida uma autora que vou querer continuar a ler.

Classificação: 5

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Este livro conta para o Desafio What's in a Name 4 (Categoria Travel/Movement)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Opinião: "A Música do Acaso"

Título original: The Music of Chance
Autor: Paul Auster
Tradutor: Ana Patrão
Colecção: Grandes Narrativas nº 38
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Agosto de 1997
ISBN: 9789722315517
Páginas: 231

Sinopse:
A Música do Acaso é um dos mais intrigantes romances de Paul Auster. Nele conta-se a história de alguém que inesperadamente recebe uma herança, decide abandonar tudo e viajar sem rumo. Disposto a continuar enquanto tiver dinheiro, não estabelece nenhum ponto de chegada, deixando-se conduzir pelo acaso. Este torna-se a força motriz que determina a sua vida, transformando-a numa sucessão de acontecimentos aparentemente sem significado. Assente sobre este jogo perverso, o autor desenrola a história dos seus personagens de acordo com os seus próprios temas-obsessões, definindo o indivíduo simultaneamente pela sua impotência e pela sua capacidade de viajar até aos limites da solidão.

A minha opinião: Este deve ter sido um dos livros mais estranhos que já li... Surreal parece-me a palavra que melhor o descreve. Nunca um livro tinha tido esta reacção em mim: por várias vezes tive de parar de ler porque as acções do personagem principal irritavam-me de tal maneira que tinha de parar e pensar, "calma é só um livro"...


Basicamente conta-nos a história de Jim Nashe que, após ter recebido uma herança, resolve vender tudo o que tem, despacha a filha para casa da irmã, compra um carro e decide percorrer o país no carro enquanto o dinheiro durar. Este desprendimento, para mim, só seria justificado se o protagonista tivesse vivido uma experiência traumatizante (a morte de um ente querido ou uma experiência de quase morte, por exemplo) ou se esta viagem coincidisse com uma viagem de auto-descoberta, em que percebesse quem é e o que realmente importa na vida. Mas não, o protagonista inicia uma viagem de auto-destruição, com sucessivos tiros no pé dos quais não retira qualquer lição e que nem sequer o parecem incomodar minimamente.

A dada altura, quando o dinheiro começa a escassear, conhece Jack Pozzi, um jogador de póquer profissional e vê nele uma oportunidade de ganhar mais dinheiro e, assim adiar a inevitável decisão de o que fazer com a sua vida quando o dinheiro acabar. Claro que tudo corre horrivelmente mal e, a partir daí, Nashe vê-se metido num buraco do qual não consegue sair e o que é que faz? Continua a escavar... Até o fim foi anti-apoteótico, mas nessa altura já não queria saber, só queria que acabasse...

Apesar de não ter gostado da história, gostei do estilo da escrita do autor e não posso negar que tem imaginação, só me parece que não é para mim. Aliás, tenho a sensação que Paul Auster é um daqueles autores que, ou se ama, ou se odeia. Ainda tenho outro livro dele por ler cá por casa por isso ainda lhe vou dar uma segunda hipótese, mas não será para breve.
 
Classificação: 1

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Este livro conta para o Desafio Spring Reading Thing 2011.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Opinião: "Jane Eyre"

Título original: Jane Eyre
Autor: Charlotte Brontë
Tradutor: Alice Rocha
Colecção: Obras Literárias Escolhidas nº 17
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Março de 2011
ISBN: 9789722345033
Páginas: 596

Sinopse: Jane Eyre é uma obra-prima da literatura inglesa, a autobiografia ficcionada de uma jovem que, depois de uma infância e adolescência desprovidas de afecto, se torna preceptora em Thornfield Hall e se apaixona pelo seu proprietário, Mr. Rochester. Plenamente correspondida nos seus sentimentos, Jane julga ter encontrado o amor por que ansiara toda a vida, mas Thornfield Hall esconde um segredo tenebroso que ameaça ensombrar a sua felicidade. Numa atmosfera misteriosa e inesquecível, acompanhamos esta heroína de espírito puro e apaixonado, que se recusa a aceitar o lugar que a sociedade lhe reservou e trava uma luta interior constante para se manter fiel às suas convicções e a si própria. Considerado muito à frente do seu tempo, este romance eleva-se à esfera da genialidade pela forma soberba como retrata a sociedade da época, pela inteligência e originalidade da prosa, pela intensidade emocional que impregna cada uma das suas páginas.

A minha opinião: Há muito tempo que queria ler Jane Eyre, pois achava que iria gostar da história. Felizmente não estava enganada, adorei! Já muito se escreveu sobre este livro e não posso dizer muito mais sem revelar alguns spoilers (infelizmente Jane Eyre já se tornou de tal forma parte do imaginário popular que acabei por partir para a sua leitura sabendo de antemão um dos seus grandes spoilers...), mas posso dizer que tudo me cativou nesta obra, não só a história (adorei as interligações e a autora não deixa pontas soltas), como também as personagens e o estilo da escrita. Jane Eyre e Mr. Rochester são personagens que vão ficar comigo para sempre.

De facto, gostei tanto que, tendo o livro cá por casa, não resisti a ler de seguida Vasto Mar de Sargaços (escrito como uma prequela de Jane Eyre)... Recomendadíssimo.
 
Classificação: 5

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Este livro conta para o Desafio Spring Reading Thing 2011.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Opinião: "A Medida do Mundo"

Título original: Die Vermessung der Welt
Autor: Daniel Kehlmann
Tradutor: Maria das Mercês Peixoto
Colecção: Grandes Narrativas nº 348
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Março de 2007
ISBN: 9789722337151
Páginas: 224


Sinopse: Este romance, ao retratar as personalidades de dois gigantes do Iluminismo alemão, Alexander von Humboldt e Carl Friedrich Gauss, configura de alguma forma uma magnífica fábula do Século das Luzes. A narração começa quando os dois eminentes sábios se encontram em Berlim, no ano de 1828. O autor recria as vidas dos dois homens, revisitando os meios políticos, científicos e culturais da época, com uma arte inexcedível para dar colorido às situações, captar as idiossincrasias de duas personalidades tão diferentes e tudo isto com uma equilibrada economia de expressão, qualidades que propiciam humor e divertimento, suscitando, por outro lado, inevitáveis reflexões sobre as limitações humanas. Humboldt, aristocrata e asceta, fanático da medida, torna-se um dos fundadores da moderna geografia graças às suas incansáveis explorações pelo mundo, enquanto Gauss, o Príncipe das Matemáticas, prefere ficar sentado à secretária fazendo cálculos, exilado de um futuro a que sente pertencer. Apesar destas incomensuráveis diferenças, ambos têm em comum o anseio de transformar o mundo em cálculos verificáveis pela Razão, outras tantas fórmulas para desvendar os segredos do Universo. A Medida do Mundo manteve-se durante cerca de um ano à cabeça das tabelas de vendas na Alemanha, onde vendeu até agora mais de um milhão de exemplares, destronando sucessivamente Harry Potter e O Código Da Vinci. Com este seu romance já traduzido em 34 países, Daniel Kehlmann é considerado um renovador da literatura de ficção em língua alemã.

A minha opinião: Desconhecia totalmente a existência deste livro até o mesmo ter sido o Livro da Semana da Editorial Presença e simplesmente não resisti, tive de aproveitar a promoção... E porquê? Porque sendo geógrafa, Humbolt é uma figura incontornável na minha área e, embora tivesse uma ideia geral do seu trabalho, pensei que esta seria a forma ideal de saber mais sobre o seu percurso de vida.

E, de facto, o autor faz um excelente trabalho de recriação dos sentimentos e motivações por detrás das decisões e actos dos dois protagonistas, Humboldt e Gauss. Contudo esta não é uma história muito fácil de ler, pelo menos para mim não foi, uma vez que a história não é contada cronologicamente, o que ainda se torna mais confuso quando são dois protagonistas.

No fundo esta é a história de uma forte amizade entre dois génios completamente diferentes: Humbolt é optimista, atlético, aventureiro, tem sede de conhecimento e descoberta pela experimentação e exploração, enquanto Gauss é melancólico, extremamente pessimista, privilegia o raciocínio lógico e abomina o "trabalho de campo". Mas apesar de tão diferentes, têm também pontos em comum como a paixão pelo rigor, a excentricidade (cada qual à sua maneira) e a dificuldade de viver em sociedade e de acordo com as regras de comportamento da mesma.

Gostei muito deste livro, mas tenho pena que não tivesse sido mais desenvolvido, até porque o autor deixa no ar um "boato" que acabei por não conseguir perceber se seria verdadeiro ou uma liberdade artística do autor.

Deixo aqui as fotos dos protagonistas do livro, com os links para as respectivas páginas da Wikipédia (basta clicar nos nomes).

 

domingo, 31 de outubro de 2010

Opinião: "Rebecca"

Título original: Rebecca
Autor: Daphne du Maurier
Tradutor: Lucinda Santos Silva
Colecção: Obras Literárias Escolhidas nº 4
Editor: Editorial Presença

Edição/reimpressão: Março de 2009

ISBN: 9789722341035
Páginas: 400


Sinopse: Publicado em 1938, Rebecca é talvez o romance por que Daphne du Maurier é hoje mais lembrada. O seu sucesso junto do público foi imediato: conheceu 28 reedições em quatro anos só na Grã-Bretanha e a versão cinematográfica assinada por Alfred Hitchcock em 1940 venceu dois Óscares. Ao longo das décadas, Rebecca tem sido avaliado pela crítica à luz de diferentes abordagens, mas, como todos os clássicos, continua a desafiar as categorizações comuns. Ao lê-lo entramos numa atmosfera onírica, sombria, alimentada por segredos que os códigos sociais obrigam a permanecer ocultos e que se concentram na misteriosa mansão Manderley. É para esta mansão que a narradora, uma jovem passiva e humilde, vai viver com o viúvo Maxim de Winter, ao aceitar o seu pedido de casamento. Mas então descobre que a memória da falecida esposa, Rebecca, se encontra ainda bem viva e que esta era tudo o que ela nunca será. À medida que o elíptico enredo se desenvolve, levantando algumas questões ambivalentes, ela terá de redefinir a sua identidade num cenário em que os sonhos ameaçam tornar-se pesadelos…


A minha opinião: Depois de ler opiniões bastante positivas sobre este livro, como a da Fernanda do As Leituras da Fernanda, percebi que teria de ler este livro. E não me arrependo mesmo nada...

Tal como um cozinhado em lume lento, esta é uma história em que a tensão se acumula lentamente. Tal como é referido na sinopse, a protagonista muda-se para Manderley, a propriedade de Maxim De Winter, depois de casarem. Contudo, logo à chegada percebe que a presença de Rebecca, a falecida Mrs De Winter, ainda se faz sentir por todo o lado e por todos à sua volta... E para agravar, Rebecca era tudo aquilo que a protagonista não é...

Esta história é um exemplo perfeito de como, por vezes, somos nós, com os nossos medos e inseguranças, os responsáveis pela nossa própria infelicidade.
 

Uma das coisas que me suscitou mais curiosidade foi o facto da protagonista, logo ao início, referir que nunca mais regressaram a Manderley. E ao longo da leitura várias foram as hipóteses que me passaram pela cabeça, mas confesso que nunca imaginei o motivo... Mas adorei o facto da autora apenas revelar este motivo nos últimos parágrafos do livro.

Fiquei mesmo muito curiosa por ver a adaptação cinematográfica de Hitchcock (de que deixo aqui o trailer) e sem dúvida vou querer ler mais livros da autora.

 


Classificação: 4

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Opinião: "Juntos ao Luar"

Título original: Dear John
Autor: Nicholas Sparks
Tradutor: Alice Rocha
Colecção: Grandes Narrativas nº 355
Editor: Editorial Presença
Edição/reimpressão: Novembro de 2006
ISBN: 9722336630
Páginas: 268

Sinopse: Quando pela primeira vez contemplam juntos a noite de lua cheia, John e Savannah sentem-se invadidos pela força inequívoca de um amor nascente, pela percepção de um futuro que acaba de ganhar forma e sentido nos seus corações jovens e expectantes. Nunca a lua lhes pareceu tão bela, nem o mundo um local tão pródigo em promessas. Mas a realidade não tarda a impor-se, precipitando uma vaga de acontecimentos que os coloca perante encruzilhadas de vida brutais. As longas separações a que a carreira militar de John - destacado na Alemanha - os obriga e o peso quase insuportável da saudade impelem Savannah a tomar uma decisão difícil que irá mudar os seus destinos para sempre, mas não o que sentem um pelo outro… No entanto, será a John que caberá a mais amarga de todas as decisões, aquela que ditará os seus futuros de uma forma irrevogável. Mas por mais dolorosa que seja, a escolha certa torna-se sempre nítida quando é o amor genuíno que nos inspira, quando sabemos o que significa amar verdadeiramente alguém…


A minha opinião: John conhece e apaixona-se por Savannah durante uma licença em que regressa a casa. Contudo tem de regressar à base na Alemanha e só voltará a ter uma nova licença daí a um ano. Quando está quase a ser dispensado do exército, algo acontece que muda tudo... Será o amor de ambos capaz de sobreviver ao tempo e à distância?


Também esta é uma história em que uma decisão precipitada muda completamente o futuro dos protagonistas. Gostei bastante da forma como o autor incorporou uma situação real na história que criou e não pude deixar de pensar que essa mesma situação talvez tenha gerado histórias semelhantes na realidade. Também gostei da abordagem ao autismo e à síndrome de Asperger, foi algo que também me fez pensar bastante. A história foi um pouco previsível, mas mesmo assim prendeu-me bastante pois tinha vontade de saber se as minhas previsões estavam ou não certas. A edição que li (2ª) tinha alguns problemas de revisão, principalmente ao nível de concordância de género, mas espero que já tenham sido resolvidos nas edições mais recentes.

Fiquei com bastante vontade de ver o filme pois, como já é costume com os livros de Nicholas Sparks, esta é uma história com bastante potencial cinematográfico.




 

Classificação: 3