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domingo, 15 de janeiro de 2012

Opinião: "À Beira do Abismo"

Título original: The Big Sleep
Autor: Ray­mond Chan­dler
Série: Phillip Marlowe #1
Tradutor: Carlo Magalhães
Editor: Contraponto
Edição/reimpressão: Julho de 2009
ISBN: 9789896660383
Páginas: 200

Sinopse: Em Los Angeles, Sternwood - um velho paraplégico confinado a uma cadeira de rodas - procura os serviços do detective privado Philip Marlowe por estar a ser chantageado por um vigarista. Contudo, Marlowe vê o seu trabalho dificultado pelas duas filhas do general que frequentam os locais menos recomendáveis de Los Angeles, e isto ainda antes de tropeçar no primeiro cadáver…

A minha opinião: À Beira do Abismo é a primeira aventura do detective privado Philip Marlowe. Nesta sua primeira aventura, Marlowe é contratado pelo general Sternwood, um velhote muito debilitado, paraplégico, mas ainda bastante orgulhoso. Sternwood está a ser chantageado com umas notas promissórias de uma suposta dívida contraída por uma das suas filhas e contrata Marlowe para tratar do assunto. E não demora muito até Marlowe encontrar o primeiro cadáver... Quanto mais Marlowe investiga, mais as filhas de Sternwood parecem estar relacionadas com o caso. E depois há a questão do genro de Sternwood que desapareceu misteriosamente...

Gostei de Marlowe, um detective desbocado, inteligente e intuitivo, com queda para se meter em sarilhos e uma tendência para procurar a verdade, mesmo que saiba que se vai meter em problemas. Mas foi praticamente a única coisa de que gostei...

A outra coisa de que gostei foi da descrição do ambiente de Los Angeles no final dos anos 30. Por um lado o glamour e por outro a escumalha e pelo meio o detective privado. Gostei bastante.

E agora o que não gostei. Para começar a forma como as mulheres são caracterizadas irritou-me. As mulheres de À Beira do Abismo são parvinhas, deficientes mentais, interesseiras, maquiavélicas, mulheres fatais, sedutoras, mimadas, infantis... Bolas, é que não há uma que se aproveite! Parece que a única qualidade que o autor concede às mulheres é a beleza.

E depois a forma como a história é contada também não me agradou particularmente, mas aqui admito que se trata de gosto pessoal. Eu gosto de histórias em que temos de esperar até ao final para descobrir a identidade do assassino, com suspense e twists. E aqui não encontrei nada disso... Marlowe vai descobrindo um novo cadáver à medida que descobre o assassino do anterior. Há crime com fartura, mas não há mistério!

Duas notas finais para a edição portuguesa. Em primeiro lugar, a tradução de algumas expressões pareceu-me estranha e, a certa altura, surge a palavra "Mausão" ao invés de "Mauzão", um erro que facilmente teria sido evitado utilizando um corrector ortográfico.

A segunda nota tem a ver com o título. Mas afinal quem é que é suposto estar à beira do abismo? O título original (The Big Sleep) tem uma explicação no penúltimo parágrafo que se perde na tradução portuguesa...

Classificação: 2

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2012, Mystery & Suspense 2012 e Vintage Mystery Reading 2012.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Opinião: "A Mecânica do Coração"

Título original: La Mécanique du Coeur
Autor: Mathias Malzieu
Tradutor: Irene Daun e Lorena e Nuno Daun e Lorena
Editor: Contraponto
Edição/reimpressão: Outubro de 2009
ISBN: 9789896660208
Páginas: 144

Sinopse: Edimburgo, 1874. Jack nasce no dia mais frio de sempre, com o coração… congelado. A Dr.ª Madeleine, a parteira (segundo alguns, uma bruxa) que o trouxe ao mundo, consegue salvar-lhe a vida instalando um mecanismo – um relógio de madeira – no seu peito, para ajudar o coração a funcionar. A prótese resulta e Jack sobrevive, mas com uma contrapartida: terá sempre de se proteger das sobrecargas emocionais. Nada de raiva e, sobretudo, nada de amor. A Dr.ª Madeleine, que o adopta e vela pelo seu mecanismo, avisa: «O amor é perigoso para o teu coraçãozinho.»

Mas não há mecânica capaz de fazer frente à vida e, um dia, uma pequena cantora de rua arrebata o coração – o mecânico e o verdadeiro – de Jack. Disposto a tudo para a conquistar, Jack parte numa peregrinação sentimental até à Andaluzia, a terra natal da sua amada, onde encontrará as delícias do amor… e a sua crueldade.

Um conto de fadas para adultos, ao estilo de Tim Burton ou Lewis Carrol.

A minha opinião: "Quem nunca provou morangos com açúcar também não os pede para sobremesa." Pois é precisamente assim que me sinto depois de ler A Mecânica do Coração. Este é um autor que vou querer voltar a ler e não posso deixar de concordar com a citação da capa: Mathias Malzieu é mesmo um pequeno milagre literário!

A Mecânica do Coração conta-nos a história de Jack que, tendo nascido no dia mais frio do mundo, nasceu com o coração gelado e foi salvo pela Dr.ª Madeleine que lhe colocou no peito um relógio de cuco que passa a fazer funcionar o seu coração. A sua fragilidade fez com que fosse super protegido pela Dr.ª Madeleine, que o criou, e que o preveniu acerca dos perigos das emoções para o seu coração, especialmente o amor e a cólera. Mas nestas coisas do amor já se sabe, por mais que nos tentemos proteger, ninguém está livre de sofrer por amor e Jack acaba por se apaixonar, aos 10 anos (acham possível que alguém se apaixone de verdade aos 10 anos?) por uma pequena cantora de rua iniciando, assim, a sua incursão no mundo real e nos seus perigos e, em última análise, começando a crescer.

Esta é uma fabulosa fábula sobre as dores do crescimento, sobre o que custa deixar de ser criança, os sonhos e as verdades que julgamos absolutas, e tornarmos-nos adultos.

Adorei a escrita do autor e concordo que o mundo por ele criado faz lembrar bastante o estilo de Tim Burton o que me deixa esperançada numa futura adaptação cinematográfica deste livro. Até consigo imaginar o Johnny Depp no papel de Méliès...

Um outro pormenor que achei delicioso foi o facto de, tal como Forrest Gump, o protagonista se ter cruzado com personagens reais.

Em suma, é um pequeno livro que se lê rapidamente, mas que escolhi ler com calma para melhor o saborear... Recomendo e vou, sem dúvida, querer ler mais deste autor.

Classificação: 4