Editor: Dom Quixote
Edição/reimpressão: Setembro de 2018
ISBN: 9789722065993
Páginas: 264
Sinopse: Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores do Porto resgataram do poço de um prédio abandonado um corpo com marcas de agressões e nu da cintura para baixo. A vítima, que estava doente e se refugiara naquela cave, fora espancada ao longo de vários dias por um grupo de adolescentes, alguns dos quais tinham apenas doze anos.
Rafa encontrara o local numa das suas habituais investidas às «zonas sujas», e aquela espécie de barraca despertou-lhe imediatamente o interesse. Depois, dividido entre a atracção e a repulsa, perguntou-se se deveria guardar o segredo só para si ou partilhá-lo com os amigos. Mas que valor tem um tesouro que não pode ser mostrado?
Romance vertiginoso sobre um caso verídico que abalou o País, fascinante incursão nas vidas de uma vítima e dos seus agressores, Pão de Açúcar é uma combinação magistral de factos e ficção, com personagens reais e imaginárias meticulosamente desenhadas, que vem confirmar o talento e a maturidade literária de Afonso Reis Cabral.
A minha opinião: Afonso Reis Cabral parte de uma história real - o assassinato e tortura de Gisberta Salce Junior, uma transexual brasileira de 45 anos, por 14 jovens, no Porto - e cria uma narrativa ficcionada dos eventos que levaram ao acto horrendo. O mais velho dos jovens tinha 16 anos e os mais novos apenas 12. Na sua maioria eram internos das Oficinas de S. José, no Porto, instituição que, já após o caso, se veio a descobrir maltratava e abusava dos jovens ao seu encargo e que, felizmente, já foi encerrada.
O corpo de Gisberta foi descoberto rapidamente porque três dos jovens (os que primeiro tinham descoberto que Gisberta estava a viver no prédio abandonado) se arrependeram do que tinham feito e condessaram. Um dos jovens até a conhecia porque Gisberta tinha tomado conta dele em pequeno (tanto Gisberta como a mãe dele recorriam à prostituição nessa altura). Estes são factos verídicos que o autor utiliza, mas ficciona os três rapazes, bem como as interações deles com Gisberta. E tenta humanizá-los. Afinal, a vida já foi bastante madrasta para quem ainda viveu tão pouco tempo...
Mas também apresenta Gisberta como uma mulher que passou por muito ao tentar ser fiel a si mesma. E que acabou por morrer apenas por isso mesmo.
Gostei, mas achei que, talvez por estar preso aos factos verídicos, a história parecia mais uma reconstituição de eventos do que propriamente um romance ficcional baseado em factos verídicos. Acabei por nunca me conseguir ligar particularmente a nenhuma das personagens. Mas o autor escreve indubitavelmente bem.
Classificação: 3
















