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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Opinião: "A Jangada de Pedra"

www.wook.pt/ficha/a-jangada-de-pedra/a/id/16393940?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Autor: José Saramago
Editor: Editorial Caminho
Edição/reimpressão: Janeiro de 2000
ISBN: 9789722121002
Páginas: 350

Sinopse: Em A Jangada de Pedra (…) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.

Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998

Sinopse retirada daqui 

A minha opinião: Comprei esta edição de A Jangada de Pedra porque o produto da sua venda foi integralmente destinado às vítimas do sismo no Haiti em 2010. Mas porque entretanto até já conhecia a história porque vi a sua adaptação cinematográfica em 2002, lá foi ficando na pilha dos livros por ler...

Contudo agora uma combinação de factores (estava na lista de livros propostos para leitura na Comunidade de Leitores e o meu kindle morreu) fez com que chegasse finalmente a sua vez. E a verdade é que ainda me lembrava bem da história, mas posso dizer que este é um dos raros casos em que gostei mais do filme...

A premissa é tão irreal e fantástica que, só por si, vale a pena: uma série de acontecimentos estranhos, aparentemente não relacionados, culminam no surgimento de uma falha nos Pirinéus, exactamente no ponto que separa a Península Ibérica da França. Primeiro foram os cães de Cerbère (uma comuna francesa dos Pirinéus Orientais) que começaram a ladrar quando nunca antes o tinham feito no preciso momento em que Joana Carda riscou o chão em Portugal com uma vara de negrilho. Depois foi Joaquim Sassa que, ao passear numa praia do Porto, pegou numa pedra pesada e atirou-a ao mar, mas a pedra viajou muito mais longe do que deveria considerando o seu tamanho e peso e a força do homem que a atirou. Ao mesmo tempo, em Espanha, Pedro Orce começou a sentir a terra tremer e não mais deixou de o sentir, mesmo que todos os sismógrafos nada registem. E no dia seguinte, em Portugal, José Anaiço começou a ser constantemente seguido por um bando de estorninhos. E depois Maria Guavaira, em Espanha mais uma vez, descobre um pé de meia velho e decide desmanchá-lo para aproveitar a lã azul, mas descobre que, por mais que desmanche, a meia não diminui de tamanho.

À medida que o tempo passa, e apesar dos estudos e tentativas da engenharia para o impedir, a falha nos Pirinéus vai aumentando, até que a Península Ibérica se separa de vez do resto da Europa e inicia uma viagem para Oeste. A Península, assim chamada por hábito já que é agora uma ilha, parece vaguear à deriva pelo Atlântico, o que gera uma inquietação na população e uma desorientação nos dirigentes políticos de Portugal e Espanha, mas também do resto da Europa e, eventualmente, dos Estados Unidos da América. Pode a Península continuar a fazer parte da Europa quando se afasta cada vez mais dela?

Entretanto, depois de ver uma notícia sobre Pedro Orce, Joaquim Sassa decide meter-se no seu Dois Cavalos e ir à procura dele. Mas, pelo caminho, ouve a história de José Anaiço e resolve procurá-lo primeiro. E quando ambos contam uma ao outro as suas respectivas histórias, resolvem ir juntos em busca de Pedro Orce. Já reunidos os três em Espanha resolvem regressar a Portugal onde os encontra Joana Carda com a sua vara de negrilho. E há uma imediata ligação entre ela e José Anaiço. Ela insiste em mostrar-lhes o risco que fez com a vara no chão e que não desaparece de maneira nenhuma. E é precisamente aí que um dos cães de Cerbère os encontra e os guia até à casa de Maria Guaivara que tem uma imediata ligação com Joaquim Sassa.

E é aí que decidem partir até aos Pirinéus para verem a falha deslocando-se agora numa viatura que tem literalmente Dois Cavalos. Dois casais, um homem idoso e um cão, todos eles causa ou consequência da separação da Península, pois quem sabe se foram as suas acções que causaram a falha ou se foi a falha a causar os estranhos fenómenos que experimentaram? Mas, um pouco à semelhança do que se passava com o resto da população, todos eles foram bastante afectados pela deriva da jangada de pedra e pela incerteza de onde irá ela parar...

Embora tenha gostado muito de ler A Jangada de Pedra, confesso que me foi impossível não comparar o livro ao filme, que adorei. É que, apesar de já ter visto o filme há 14 anos, foi daqueles que marcou e lembrava-me ainda do principal que dele retirei: ao ver-se afastada da Europa, a população viu despoletar em si um sentimento de identidade ibérica, muito para além da nacionalidade portuguesa ou espanhola, e o nascimento, talvez, de uma nova nação, a Ibéria. Ora isso não surge no livro e para mim diminuiu o impacto do final do mesmo. Há também uma alteração na identidade do José Anaiço que no filme é espanhol que, embora ache desnecessária, até entendo o porquê de ter sido feita, pois achei que o facto de ambos os casais serem constituídos por um elemento português e um elemento espanhol era mais um factor que contribuía para o despoletar desta nova identidade.

Ainda assim gostei mesmo muito. Embora não seja uma leitura rápida nem fácil, é muito agradável e prazenteira. A atenção ao pormenor e a forma como tudo está ligado é testemunho do génio do autor e eu mal posso esperar por ler os seus livros que ainda me faltam ler.

Classificação: 4

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2016 e TBR Pile 2016

Opinião: "O Conto da Ilha Desconhecida"

www.wook.pt/ficha/o-conto-da-ilha-desconhecida/a/id/16089594?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Autor: José Saramago
Ilustrador: Bartolomeu dos Santos
Editor: Editorial Caminho
Edição/reimpressão: Janeiro de 1999
ISBN: 9789722112635
Páginas: 40

Sinopse: Um dia, um homem dirigiu-se à porta do rei para pedir um barco, mas aquela era a porta das petições, e não foi recebido pelo rei. Depois de muita insistência e de a muitas portas bater pelos meandros da burocracia real lá conseguiu que o rei lhe desse, finalmente, o tão desejado barco. A mulher da limpeza do palácio real foi a única tripulação que arranjou e, depois de apetrechado e limpo o barco, dormiram essa noite no cais. Na manhã seguinte baptizaram a embarcação e, pela hora do meio-dia, com a maré, a Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

A minha opinião: Um pequeno conto que é também uma mordaz crítica à sociedade portuguesa. Num reino facilmente identificado como Portugal, o palácio do rei tinha várias portas, entre as quais a dos obséquios e a das petições. O rei passava o tempo todo à porta dos obséquios, mas os súbditos que batiam à porta das petições tinham de passar por todo o staff do palácio começando pela mulher da limpeza, passando pelos vários secretários do rei até ao próprio rei que normalmente despachava o assunto para o seu primeiro secretário e por assim adiante até voltar à mulher da limpeza que acabava por decidir o assunto.

Mas desta vez o homem à porta das petições não quer títulos, condecorações ou dinheiro, ele quer falar com o rei. E recusa-se a deixar a porta até que aconteça. E lá começa o pedido a seguir o percurso do costume... Ora os dias vão passando e a fila à porta das petições continua a aumentar, pelo que o rei lá se digna a ir falar com o homem. E este pede-lhe um barco. E quando o rei o questiona porque quer ele um barco ele responde-lhe que quer um barco para partir em busca da Ilha Desconhecida. Mas que ilha, se o mundo já foi todo descoberto? Todavia o homem insiste e o rei, que já só quer livrar-se da fila na porta das petições e não ficar mal visto perante os seus súbditos, acede.

E é assim que o homem consegue o seu barco e já pode partir em busca da Ilha Desconhecida, assim que consiga uma tripulação. Mas a única pessoa que se oferece para partir com ele é a mulher da limpeza que ouviu a sua petição ao rei e decidiu que também ela quer encontrar a Ilha Desconhecida. E é à medida que vão preparando a sua viagem que percebem que talvez a Ilha Desconhecida esteja mais próxima do que pensavam...

Gostei mesmo muito e acho que funciona muito bem como uma introdução à obra de Saramago. É incrível como num pequeno conto de apenas 40 páginas o autor consegue juntar crítica social, homenagem ao espírito descobridor e aventureiro dos portugueses e uma história de amor. Muito bom!

Classificação: 4

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Opinião: "A Maior Flor Do Mundo"

www.wook.pt/ficha/a-maior-flor-do-mundo/a/id/15870206?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Autor: José Saramago
Ilustrador: João Caetano
Editor: Caminho
Edição/reimpressão: Dezembro de 2002
ISBN: 9722114379
Páginas: 36

Sinopse: E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?
Uma magnífica obra do escritor José Saramago, com bonitas ilustrações de João Caetano.


A minha opinião: Ao contrário de O Silêncio da Água, A Maior Flor Do Mundo foi escrito por Saramago propositadamente como um texto infantil. E é o próprio autor quem confessa, no início, que não sabe escrever livros infantis... E talvez por isso este me tenha parecido um livro infantil para adultos.

A história é simples: um menino sai de casa numa tarde (numa das intermináveis tardes da infância) e parte à descoberta. Acaba por salvar uma flor e adormecer, e quando o final da tarde chega e ele não regressa, o seu pai parte à sua procura.

Mas se a história é simples, a linguagem não o é, e isso é novamente admitido pelo autor que reconhece que os adultos terão de explicar às crianças o significado das palavras que não conhecem. E acredito que sejam muitas... E talvez o verdadeiro público-alvo do autor sejam os adultos que o lêem às crianças e o que o autor realmente pretenda é relembrá-los do que é ser criança...

As ilustrações, mais uma vez, são belíssimas, especialmente as que representam Saramago.

Classificação: 4

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Opinião: "O Silêncio da Água"

www.wook.pt/ficha/o-silencio-da-agua/a/id/10952311?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Autor: José Saramago
Ilustrador: Manuel Estrada
Editor: Editorial Caminho
Edição/reimpressão: Janeiro de 2011
ISBN: 9789722123938
Páginas: 24

Sinopse: «Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci.» A partir de uma recordação de infância, José Saramago compôs uma fábula universal que sobressai pela sua sabedoria. Manuel Estrada, um dos maiores artistas gráficos contemporâneos, recria com mestria toda a doçura desta história memorável.

A minha opinião: Nem sei dizer há quantos anos não lia um livro infantil... Mas este era uma das propostas de leitura da Comunidade de Leitores e despertou-me a atenção.

O Silêncio da Água conta-nos a história de um menino que sai de casa dos avós para ir pescar no rio e acaba por ver o isco e o anzol serem levados por um peixe. Mas ao invés de admitir a derrota, fica determinado em capturar o peixe e não deixar que ele leve a melhor.

Uma coisa que notei aquando da leitura foi o quanto a história me parecia uma versão infantil de O Velho e o Mar. Ao mesmo tempo o texto não me parecia texto de livro infantil (mas aqui podia ser eu que já não estou habituada). E foi só quando cheguei ao final é que percebi que o texto de O Silêncio da Água é um fragmento do livro As Pequenas Memórias de José Saramago. E achei uma ideia gira e que, do que me lembro do livro, até tem potencial para dar origem a mais livros do género. Continuo com a desconfiança de que o texto não funcione muito bem num livro infantil, mas, como já referi, não estou familiarizada com o género, pelo que pode ser apenas impressão minha.

Já as ilustrações são muito giras, e há sempre palavras e letras incluídas nas mesmas, o que me agradou muitíssimo.

Classificação: 4

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Opinião: "Casos do Beco das Sardinheiras"

www.wook.pt/ficha/casos-do-beco-das-sardinheiras/a/id/14147533?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Autor: Mário de Carvalho
Editor: Caminho
Edição/reimpressão: Maio de 1991
ISBN: 9722105922
Páginas: 88

Sinopse: O Beco das Sardinheiras é um beco como outro qualquer, encafuado na parte velha de Lisboa. Uns dizem que é de Alfama, outros que é já de Mouraria e sustentam as suas opiniões com sólidos argumentos topográficos, abonados pela doutrina de olissiponenses egrégios. Eu, por mim, não me pronuncio. Tenho ideia de que ali é mais Alfama, mas não ficaria muito escarmentado se me provassem que afinal é Mouraria.
   Creio que o nome lhe vem das sardinheiras que exibem um carmesim vistoso durante todo o ano, plantadas num canteiro, que rompe logo à esquina, não longe da drogaria que já fica na Rua dos Eléctricos.
   A gente que habita o Beco é como a demais, nem boa nem má. Tem sobre os outros lisboetas um apego ainda maior ao seu sítio e às suas coisas. Desde há muito tempo que não há memória que algum dos do beco tenha emigrado de livre vontade.

A minha opinião: Este é o primeiro livro de Mário de Carvalho que leio e, embora tenha gostado, não posso dizer que me tenha encantado. Num pequeno conjunto de contos, de pequenos episódios, o autor faz o retrato de um bairro lisboeta fictício, mas igual a tantos outros bairros lisboetas reais, com as suas próprias regras, com as suas crendices e com personagens bastante caricatos. E há reminescênias do realismo mágico de Allende ou Márquez adaptado à realidade portuguesa.

Os contos são independentes, mas alguns acabam por se interligar e as personagens repetem-se. Afinal, são todos vizinhos do mesmo bairro. Há uma certa inocência na forma como os habitantes do Beco das Sardinheiras encaram a vida, e o espírito de entreajuda é muito forte. Mas há também uma certa crítica à crendice popular e ao chico-espertismo no relato destes personagens.

Enfim... no fundo, no fundo, o que realmente importa é não confundir género humano com Manuel Germano!

Classificação: 3

domingo, 3 de novembro de 2013

Opinião: "Ensaio sobre a Cegueira"

www.wook.pt/ficha/ensaio-sobre-a-cegueira/a/id/58858?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Autor: José Saramago
Editor: Editorial Caminho
Edição/reimpressão: Agosto de 2008
ISBN: 9789722110211
Páginas: 312

Sinopse: Uma cidade é devastada por uma epidemia instantânea de "cegueira branca". Face a este surto misterioso, os primeiros indivíduos a serem infectados são colocados pelas autoridades governamentais em quarentena, num hospital abandonado. Cada dia que passa aparecem mais pacientes, e esta recém-criada "sociedade de cegos" entra em colapso. Tudo piora quando um grupo de criminosos, mais poderoso fisicamente, se sobrepõe aos fracos, racionando-lhes a comida e cometendo actos horríveis. Há, porém, uma testemunha ocular a este pesadelo: uma mulher, cuja visão não foi afectada por esta praga, que acompanha o seu marido cego para o asilo. Ali, mantendo o seu segredo, ela guia sete desconhecidos que se tornam, na sua essência, numa família. Ela leva-os para fora da quarentena em direcção às ruas deprimentes da cidade, que viram todos os vestígios de uma civilização entrar em colapso. A viagem destes é plena de perigos, mas a mulher guia-os numa luta contra os piores desejos e fraquezas da raça humana, abrindo-lhes a porta para um novo mundo de esperança, onde a sua sobrevivência e redenção final reflectem a tenacidade do espírito humano. (daqui)

A minha opinião: Apesar de ter ido a correr comprar o livro depois de ter visto o filme, acabei por adiar a sua leitura, por um lado porque, como já sabia a história, tive medo de arrastar a leitura e, por outro, porque já sabia que a história era pesada...

Mas a verdade é que, apesar de a história ser pesada e de já a conhecer (porque o filme está muito fiel ao livro), a leitura foi fluída e compulsiva do início ao fim. E confirmou aquilo de que já desconfiava: gosto muito da escrita de Saramago. Só tenho pena de não o ter "descoberto" mais cedo...

Em Ensaio sobre a Cegueira, Saramago cria um cenário apocalíptico, resultante de um súbito e inexplicável surto de cegueira que eventualmente afecta toda a população. Os cegos são rapidamente isolados do resto da população e votados a um quase total abandono e, embora de início sejam capazes de manter uma espécie de sociedade semi-organizada, quando é atingida a sobrepopulação, instala-se o caos, agravado pela constituição de um gangue de criminosos organizados que obrigam os restantes cegos a actos abomináveis, fazendo-os trocar a sua dignidade por comida. Quando a precária sociedade dos cegos internados colapsa, estes partem e percebem que não resta mais ninguém que veja.

Na verdade há uma pessoa que vê, que nunca perdeu a visão, a mulher do médico. E é ela que irá guiar um grupo de sete pessoas pelas ruas em busca de abrigo e comida. Mas como ela própria constata várias vezes, tanto enquanto estava internada, como depois livre nas ruas, o ditado "em terra de cegos, quem tem olho é rei" não é tão verdadeiro quanto isso...  Porque ser a única que vê quando todos os outros estão cegos tanto é uma bênção como uma maldição. Ela vê o caos por todo o lado, a sujidade e a decadência e, por mais que tente ajudar, não pode arriscar anunciar a sua visão pois seria humanamente impossível a uma mulher valer a toda a população.

Gostei muito do facto do autor não ter situado a história nem espacial, nem temporalmente, o que lhe confere uma intemporalidade que a tornará sempre actual. Também as personagens nunca são nomeadas, são apenas o primeiro cego, a sua mulher, o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta e o rapazinho estrábico, para referir apenas os mais importantes. Penso que todos estes pormenores acabam por realçar a possibilidade de que este cenário se poderia passar em qualquer cidade, em qualquer país, e passar-se-ia exactamente da mesma forma. E que, independentemente do desenvolvimento da sociedade e dos avanços da tecnologia, no fundo somos muito básicos e todo o nosso desenvolvimento e tecnologia são inúteis perante a falta de algo tão básico como a visão. E esse é um cenário bastante assustador, perceber como é fácil perdemos a nossa humanidade, aquilo que nos separa dos animais irracionais. Mas, ao mesmo tempo, permite-nos toda uma nova perspectiva sobre aquilo que realmente importa e sobre a importância de nos agarrarmos à nossa humanidade.

Classificação: 5

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2013 e Book Bingo 2013 (prémio Nobel).

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Opinião: "As Pequenas Memórias"

Autor: José Saramago
Editor: Editorial Caminho
Edição/reimpressão: 2006
ISBN: 9789722118316
Páginas: 152

Sinopse: As Pequenas Memórias é um livro de recordações que abrange o período entre os quatro e os quinze anos da vida de José Saramago. O autor tinha As Pequenas Memórias na cabeça há mais de 20 anos, por isso a altura para o escrever era esta: "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou". (daqui)

A minha opinião: Esta não foi propriamente a minha estreia na leitura de Saramago, pois há alguns anos comecei a ler O Ano da Morte de Ricardo Reis e até estava a gostar, mas a edição que tinha, que era da colecção Mil Folhas do Público, a meio repetia páginas do início e não tinha as páginas em falta... Resultado: já não arranjei o livro e a leitura ficou pela metade.

Apesar de ter decidido ler finalmente um dos seus livros este ano, não tinha pensado começar por As Pequenas Memórias. Mas inscrevi-me numa Comunidade de Leitores na biblioteca municipal e este foi o primeiro livro escolhido.

Gostei muito destas pequenas memórias de Saramago. Este não é, definitivamente, o meu género preferido, mas dei por mim completamente embrenhada nas pequenas histórias da sua infância e juventude que o autor compartilha connosco. Não sendo uma grande obra literária, penso que a qualidade da escrita que lhe valeu o Nobel é perfeitamente notória.

A simplicidade e falta de pretensiosismo que emana destas histórias fez-me gostar ainda mais de Saramago como pessoa e deixou-me ainda mais curiosa em conhecer as suas obras de ficção (muitas das quais inspiradas em algumas destas memórias). Acho que o objectivo do autor foi cumprido em pleno, fiquei a saber de onde saiu o homem que era.

Classificação: 4

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Este livro conta para o Desafio Fall Into Reading 2011.