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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Opinião: "1984"

Título original: Nineteen Eighty-four
Autor: George Orwell
Tradutor:Ana Luísa Faria
Colecção: Mil Folhas nº25
Editor: Público
Edição/reimpressão: Outubro de 2002
ISBN: 8481305626
Páginas: 320


Sinopse: Na sua obra 1984, escrita um ano antes da sua morte, em 1950, George Orwell concebe um Estado futuro omnipresente e omnipotente, constituindo um dos clássicos da literatura do século XX. A personagem de O'Brien, membro da direcção do partido dominante no Estado totalitário, condensa a ideia da obra, com um comportamento caracterizado pelo exercício do poder como valor absoluto. Tudo é justificável para conseguir o poder, e tudo para o conservar. Não há casa que escape à vigilância do Super-Estado, o Grande Irmão cuja presença chega às actividades mais íntimas do ser humano.

Winston Smith, o protagonista, é um homem que tenta rebelar-se contra esse sistema monstruoso, mas que, pouco a pouco, se vê submetido ao mesmo. O Estado apodera-se da consciência das pessoas, dos seus sentimentos, dos seus sentidos. Em 1984, Orwell oferece-nos um panorama profundo das relações e dependências que o Estado é capaz de criar com uma filosofia ditatorial, onde não há respeito pela individualidade do ser humano, e muito menos quando a tecnologia se encontra ao serviço dessa perversão.

O Grande Irmão, esse olho que tudo vê, inspirou o nome de um dos programas que mais êxito teve nos últimos anos dentro do género dos reality shows. Como em 1984, trata-se de um grupo de pessoas que se submete à vigilância permanente de todos os seus actos. A diferença radica no facto de o fazerem livremente. A novela de Orwell, contudo, expõe um retrato lastimoso e magistral da perda de liberdade do ser humano.


A minha opinião: 1984 é um livro assustador. Não só porque a sociedade descrita por Orwell é incrivelmente realista, mas também porque, tratando-se de um cenário futurista que se passa em 1984, mas publicado em 1949, é assustadoramente actual.

Em 1984 o Grande Irmão controla tudo e todos. A Polícia do Pensamento está constantemente atenta e vigilante. Colegas, amigos, família, são levados para nunca mais regressar e é como se nunca tivessem existido. A Novilíngua, que supostamente pretende apenas facilitar a comunicação, surge  como forma de eliminar o livre pensamento. A repressão é conseguida através dos telecrãs que vigiam tudo e todos, inclusivamente nas suas próprias casas, mas também através do controlo da comunicação social. As notícias são manipuladas de acordo com a agenda do Partido e há uma constante guerra por áreas disputadas entre três super-potências, sendo que duas são aliadas contra uma terceira, e as alianças alteram-se periodicamente, sendo qualquer referência à aliança anterior imediatamente destruída...

O passado é, assim, constantemente reescrito e é precisamente esse o trabalho do protagonista, Winston Smith. Ele trabalha no Ministério da Verdade, reescrevendo a História. Contudo, a pouco e pouco, a semente da desconfiança e da revolta começa a desabrochar dentro de Smith. Mas conseguirá um homem fazer a diferença numa sociedade completamente dormente e crente fiel de que o Partido sabe o que é melhor para todos?

Como já referi, é um cenário absolutamente assustador... Porque muito daquilo que Orwell imaginou já existe actualmente. E porque será tão fácil, se não fizermos nada contra, chegar lá... Afinal, e citando Edmund Burke, the only thing necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing.

Antes de o ler, já sabia muito sobre 1984. Mas confesso que foi muito pior do que estava à espera. E nunca teria imaginado aquele final, embora agora perceba que era o único final possível. É triste perceber que Orwell nos alertou para o caminho para onde nos dirigimos enquanto sociedade há 69 anos, mas parece ser inevitável que é mesmo para lá que nos dirigimos... Um livro genial e uma leitura obrigatória!


Classificação: 5

Fonte

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Opinião: "O Tio Prodigioso"

www.wook.pt/ficha/o-tio-prodigioso/a/id/88017?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Título original: The Fabulous Clipjoint
Autor: Fredric Brown
Série: Ed & Am Hunter #1
Tradutor: Mário Quintana
Colecção: 9 mm nº17
Editor: Mediasat Group, S.A.
Edição/reimpressão: Setembro de 2005
ISBN: 8498193982
Páginas: 192

Sinopse: Ed Hunter tem 18 anos, mas não quer acabar como o pai, bêbado, casado com uma "velha" mal-humurada. Uma noite, o pai não regressa a casa - é roubado e assassinado num bar da cidade. Ed, que fica sozinho, procura o tio Ambrose, com quem faz equipa para tentar descobrir quem é o assassino. "O Tio Prodigioso" (1947) é o primeiro de seis livros com a mesma dupla. O autor americano Fredric Brown (1906-1972), também conhecido como autor de romances de ficção científica, venceu o Mystery Writers Edgar Award com este seu primeiro romance.

A minha opinião: Precisava de ler um mistério vintage de um autor que nunca tivesse lido antes para o desafio Vintage BINGO e o escolhido foi este O Tio Prodigioso. Tinha mais algumas hipóteses, mas acabei por escolher este por ser o primeiro de uma série e assim, se gostasse, poderia tentar arranjar os restantes para ler. Infelizmente, não me parece que os vá procurar... É que este é um mistério do estilo noir e eu não sou particularmente fã desse estilo de mistérios...

Wallace Hunter aparece morto num beco e tudo indica que terá sido assaltado e atacado quanto se encontrava bêbado. O seu filho Ed procura o tio Ambrose, que trabalha numa feira ambulante, pois não está convencido que se tenha tratado de um simples assalto que terminou em assassinato. O tio Ambrose concorda e, juntos, começam a investigar o caso. E, obviamente, há muito mais na história do que parecia à primeira vista.

Nunca me consegui ligar a nenhuma das personagens, nem ao Ed, que me irritou várias vezes, nem ao tio Ambrose, que me pareceu muito interessante ao início, na feira, mas aos poucos, começou a parecer o típico investigador particular durão. E, para uma história com uma dupla de detectives, não partilharem a informação um com o outro não me pareceu muito inteligente...

Sendo este o primeiro livro da série, provavelmente a relação entre eles ir-se-á desenvolver e irão trabalhar mais em equipa, mas vou ficar sem saber.

Tenho noção que o problema é meu, que não vou à bola com o género, e acredito que quem gosta do mesmo tenha neste livro uma leitura prazeirosa. Infelizmente não foi o meu caso e, às tantas, já revirava os olhinhos a certas coisas.

Classificação: 2

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Este livro conta para os Desafios Vintage Mystery BINGO 2014 (author never read before), TBR Pile 2014 e Mount TBR 2014.

sábado, 23 de novembro de 2013

Opinião: "Morto Duas Vezes"

www.wook.pt/ficha/morto-duas-vezes/a/id/164697?a_aid=4e767b1d5a5e5&a_bid=b425fcc9
Título original: The Case of the Late Pig 
Autor:
Série: Albert Campion #8
Tradutor: Maria Adelaide Namorado Freire
Colecção: 9mm nº19
Editor: Público
Edição/reimpressão: Setembro de 2005
ISBN: 8498194008
Páginas: 160

Sinopse: Primeiro fora a carta anónima e, logo a seguir o anúncio inserido em The Times informando que R. I. Peters, de 37 anos de idade, falecera. Albert Champion, o célebre e desenvolto detective recordava-se bem dele pois tinham sido colegas de escola, onde o tratavam carinhosamente por "Pig" Peters. No funeral encontrava-se outro ex-colega, Gilbert Whippet, que também recebera uma carta anónima idêntica à de Champion, ambas escritas na mesma máquina, mas.. com que finalidade? A resposta começou a surgir cinco meses depois quando o detective foi chamado a investigar um caso de assassínio ocorrido há poucas horas. É que o corpo da vítima era, sem dúvida nenhuma, o do já falecido "Pig" Peters!
Sinopse retirada daqui

A minha opinião: Gosto muito desta colecção que saiu com o Público em 2005, mas acho inaceitável o que se passou com este livro. É que até ter iniciado esta opinião, estava convencida que tinha lido o 13º livro da série More Work for the Undertaker, porque é esse o título original indicado. Contudo, ao começar a copiar a sinopse (tenho por hábito não a ler antes de iniciar a leitura), verifiquei que a mesma não correspondia à história que li. Graças ao Goodreads lá descobri que a história que li foi, afinal, The Case of the Late Pig, 8º livro da série. Por mais que tente, não consigo descobrir como raio é que este engano aconteceu, nem como é que ninguém deu por ele antes da impressão, mas enfim, aqui fica o devido aviso.

Este foi o primeiro livro desta autora que li, e posso dizer que gostei bastante e fiquei com vontade de ler mais livros com Albert Campion como protagonista. Relembrou-me o protagonista dos livros de Dorothy L. Sayers, Lord Peter Wimsey, na medida em que, tal como ele, também Albert Campion é um membro proeminente da sociedade londrina que utiliza as suas capacidades (inteligência, intuição e dedução) na resolução de mistérios.

A história tem início com a notícia da morte de um antigo colega de escola de Campion, Pig Peters, um rufião que lhe infernizou a vida a ele e aos seus colegas. Intrigado pela notícia e por um estranho bilhete anónimo, Campion acaba por ir ao funeral, onde encontra um outro colega de escola, Gilbert Whippet, também ele atraído ali por um bilhete anónimo.

Cerca de cinco meses mais tarde, Campion é contactado por Janet Pursuivant, que lhe pede que vá de imediato para Highwaters, pois ocorreu um crime. Aí chegado, encontra-se com o pai de Janet, o coronel Sir Leo Pursuivant, chefe da polícia da região, que o leva de imediato a ver o corpo. E qual não é o seu espanto quanto vê que o corpo em questão se trata de Pig Peters. Mas se Pig Peters morreu no dia anterior, quem foi enterrado há cinco meses?

Rapidamente Campion fica a saber que os anos em nada melhoraram o feitio de Pig Peters que, no fundo, continuava o mesmo rufião de sempre, coleccionando inimizades por onde passava. Ninguém parecia gostar dele, e há uma abundância de pessoas com motivo para o matar... E há ainda a questão do homem e da mulher que tinham estado no funeral e que agora estão em Highwaters. Saberão eles mais do que dizem? Há ainda um novo bilhete anónimo, recebido também, mais uma vez, por Whippet, que também se desloca a Highwaters.

Campion terá de resolver, não só o mistério da morte de Pig, mas também o mistério da morte de há cinco meses (nomeadamente de quem era o corpo e se se tratou de uma morte natural ou de crime), descobrir o autor dos bilhetes anónimos e evitar ser mais uma vítima do assassino.

Apesar de ter conseguido perceber quem era o assassino, houve alguns pormenores que me escaparam e, como gostei da escrita e do protagonista, vou tentar ler os livros anteriores da série. Até porque dá para perceber que Sir Leo e Janet já foram personagens de livros anteriores e fiquei curiosa de saber o que se passou entre Albert e Janet...

Classificação: 4

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Este livro conta para os Desafios Vintage Mystery Reading 2013 (Dangerous Beasts), Cruisin' thru the Cozies 2013, Mystery/Crime 2013 e Mount TBR 2013.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Opinião: "Olhos Verdes"

Autor: Luísa Costa Gomes
Colecção: Mil Folhas nº21
Editor: Público
Edição/reimpressão: Setembro de 2002
ISBN: 8496075079
Páginas: 194

Sinopse: Olhos Verdes trata da aparência e do acaso. Os seus personagens fazem parte do mundo das aparências: trabalham em profissões ou têm inclinações que implicam uma evasão da realidade: Pedro Levi é modelo de roupa interior; Eva Simeão é viciada em TV; o seu ex-marido, Paulo Mateus, deslumbrou-se com a América, que é "outro mundo"; João Baptista Daniel, perseguido por Eva mas não se interessando por esta, é director de marquetingue; Beatriz, sua mulher, é revisora gráfica ("Passa a melhor parte do seu dia a tornar mais pitoresca a realidade"); as irmãs Fonseca, Maria do Céu e Maria das Dores, oscilam entre o esteticismo e o esoterismo; Ísis, amiga de Eva, dedica-se ao disaine; Lourenço é fotógrafo; Anadir é a rainha dos jingles publicitários... Com todos eles, Luísa Costa Gomes pinta um nervoso retrato dos seres da sociedade contemporânea, que se entrecruzam casualmente e se evadem da realidade. Um longo capítulo dedicado a George Berkeley, o filósofo britânico que tentou demonstrar que a realidade material só existe na percepção que temos dela, tenta enquadrar a narrativa numa moldura teórica. Luísa Costa Gomes criou um romance dinâmico, interessante e cheio de humor, que se reflecte em muitas das suas linhas: "Tinha saudades dele a partir do metro e quarenta de distância"... "As pessoas são capazes de suportar tudo, desde que o possam suportar confortavelmente sentadas"... "O Bem vale mais que o Mal porque há de menos. É a lei da oferta e da procura."

A minha opinião: Olhos Verdes não segue uma estrutura narrativa linear. Centra-se em dois personagens predominantes, Pedro Levi e Eva Simeão, mas não se fica por estes, há toda uma série de outros personagens (uns mais secundários que outros) que vamos conhecendo à medida que se relacionam com Pedro e Eva e uns com os outros. É uma história sobre pessoas e sobre as suas complexidades. Pedro e Eva são personagens muito humanas, neuróticas e desajustadas, sempre em busca de algo inatingível, quer se trate de uma obsessão com um vizinho ou da procura de uma cura. E a obsessão com a imagem é algo que está sempre presente nas acções e pensamentos dos personagens.

Apesar da escrita fragmentada, estava a gostar do livro até chegar ao capítulo V. Até pensei que este teria sido um livro interessante para estudar nas aulas de português do secundário pois, por vezes pareceu-me adivinhar significados escondidos que seria giro analisar. Então qual é o problema? É que o capítulo V é a coisa mais surreal de sempre. Do nada, a autora resolve presentear-nos com a biografia do filósofo George Berkeley. Sim, leram bem, são 42 páginas (num livro com 194) única e exclusivamente com a biografia de uma personagem que nunca havia sido mencionada antes. Bom, mas há um motivo para isso que percebemos no capítulo seguinte, certo? Não, não há. E apesar da explicação dada na sinopse para a existência deste capítulo, a mim não me convence e continuo a achar que o mesmo é totalmente desnecessário. Com certeza haveria uma outra forma menos massuda e até mais eficaz de atingir o mesmo efeito, não?

E o pior é o que o capítulo anterior termina num cliffhanger e passei 42 páginas à espera de finalmente saber o que tinha acontecido... Eis que inicio o último capítulo e deparo-me com a descrição do Assalto ao Aeroporto. Sim, o filme com o Bruce Willis. Ah pois é, depois de uma biografia nada melhor que o argumento de um filme. o_O

Pronto se resolverem ler, não digam que não avisei e preparem-se para uma experiência verdadeiramente esquizofrénica. E estão à vontadinha para saltar o capítulo V, a não ser que apreciem biografias de filósofos do século XVIII. Depois não digam que não avisei...

 Classificação: 2

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Este livro conta para os Desafios Fall Into Reading 2012, Color Coded 2012 e Mount TBR 2012.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Opinião: "O Deus das Moscas"

Título original: The Lord of Flies 
Autor: William Golding
Tradutor: Luís de Sousa Rebelo
Colecção: Mil Folhas nº7
Editor: Público
Edição/reimpressão: Maio de 2002
ISBN: 8481305065
Páginas: 224

Sinopse: Com 14 milhões de cópias vendidas só nos países de língua inglesa, O Deus das Moscas toma lugar de pleno direito no círculo restrito das obras da grande literatura que conseguem realizar tiragens de bestseller de enorme consumo. Romance de estreia do então pouco conhecido William Golding, o livro foi publicado em Inglaterra, em 1954, graças ao caloroso apoio de T. S. Eliot, mas o grande sucesso chega com a edição económica publicada nos Estados Unidos em 1959, que se torna um verdadeiro objecto de culto, sobretudo junto do público jovem.
Ainda que de cativante haja bem pouco no romance: na sequência de um desastre aéreo ocorrido durante um conflito planetário, um grupo de meninos e rapazes encontra-se numa ilha deserta sem qualquer adulto. Pareceria a situação ideal para experimentar uma organização social fundada na liberdade natural, mas a pouco e pouco o grupo é invadido pelos medos e pelas inseguranças dos seus vários elementos, que afrouxam o controlo racional e deixam vir à tona um instinto agressivo e selvagem: um instinto capaz de destruir qualquer forma de colaboração ou solidariedade e que conduz a um desfecho trágico que, a partir de um certo momento, parece ser verdadeiramente inevitável.
Romance de tese sobre a naturalidade do mal, O Deus das Moscas é todavia toda uma perfeita máquina narrativa, na qual as dinâmicas incansáveis do entrecho se fundem com uma subtil e aturada análise da psicologia infantil e com uma profunda mas desolada reflexão sobre os fundamentos antropológicos da violência e da ânsia de poder.

A minha opinião: A sinopse indica que o romance tem pouco de cativante e não podia concordar mais... O Deus das Moscas conta-nos a história de um grupo de rapazes e meninos que, devido a um acidente de avião se vêem perdidos numa ilha deserta entregues a si próprios e sem qualquer adulto. Rapidamente elegem um chefe, Rafael, que decide que a tarefa primordial é manter sempre um fogo a arder para funcionar como aviso a potenciais barcos que passassem ao largo. Logo nessa primeira noite é possível ver que será muito difícil organizar o grupo de rapazes, pois à primeira sugestão que alguém faz, agem todos sem pensar e completamente desorganizados, e acabam por deitar fogo à ilha.

Para além de Rafael outros rapazes se destacam: Bucha é a voz da razão, mas a quem ninguém dá ouvidos até ser tarde demais; Jack é uma espécie de número dois que assume o comando dos caçadores; e Simão que é também equilibrado, mas incapaz de se expressar convenientemente.

Não demora muito até que os rapazes abandonem as responsabilidades e se entreguem à liberdade que a ilha lhes proporciona. E daí até regredirem à selvajaria é um pulinho... O final foi um autêntico murro no estômago e deixou-me a pensar o que aconteceria se o mesmo sucedesse actualmente, com os miúdos de hoje. Será que pelo menos saberiam fazer fogo?

Embora perceba perfeitamente o porquê deste livro se ter tornado um clássico, não me cativou. Nunca me liguei verdadeiramente a nenhuma das personagens. E uma coisa que me irritou bastante na tradução foi o facto de terem traduzido o nome de todas as personagens à excepção de Jack.

Outra coisa que não percebo é o porquê deste livro estar na lista de livros banidos. É certo que é violento, mas não me parece mais violento que certos filmes que passam ao Domingo à tarde...

Classificação: 2

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2012, What's in a Name 5 (rastejante arrepiante) e Fall Into Reading 2012.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Opinião: "A Costa dos Murmúrios"

Autor: Lídia Jorge
Colecção: Mil Folhas nº10
Editor: Público
Edição/reimpressão: Julho de 2002
ISBN: 8493264512
Páginas: 224

Sinopse: A Costa dos Murmúrios, publicado em 1988, é o mais famoso romance de Lídia Jorge, tanto em Portugal como no estrangeiro. O seu aparecimento foi um êxito desde o primeiro momento, tendo chegado a vender cerca de 50.000 exemplares em menos de um ano. A obra é produto da experiência que a autora viveu em África e, particularmente, dos seus três anos em Moçambique, imediatamente antes da queda do regime de ditadura em 1974. Com a nova ordem política, Portugal aceita a autonomia da sua colónia, que em Junho de 1975 obtém a independência plena. O romance reflecte a época da luta colonial segundo as recordações da autora, mas o fio condutor da trama é a traumática história de amor de Eva Lopo e Luís Alex, combatente ao serviço do projecto imperial salazarista. O romance abre com um conto relatado na terceira pessoa sobre o casamento de Eva e Luís. Mas, seguidamente, é Eva que assume a voz da narração e evoca os últimos vinte anos de vertiginosas transformações. Entre elas, é particularmente dolorosa a do seu marido, que se converte num repressor sanguinário, o que conduz Eva a manter, por despeito, uma relação amorosa com um jornalista mulato. Para além do seu vigoroso conteúdo como personagem de carne e osso, Luís é igualmente símbolo de um regime incapaz de gerar futuro algum e que tenta defender-se pela força. O balanço da evocação é tão lamentável e desolador como a própria guerra.

A minha opinião: A Costa dos Murmúrios não foi uma leitura fácil. A autora tem uma escrita bastante particular e, por vezes pareceu-me que era suposto ter inferido algo que não atingi... Talvez por a realidade retratada no livro me ser, felizmente, desconhecida. Não sei, mas fiquei com a sensação de que me falhou alguma coisa.

O livro começa com um conto sobre o casamento de Eva e Luís intitulado Os Gafanhotos. De seguida, Eva começa a contar a sua história, estabelecendo paralelos com o conto. E a sua história começa com a sua chegada a Moçambique para o seu casamento com o alferes Luís. Mas a história idealizada em Os Gafanhotos não corresponde à realidade pois, como Eva irá descobrir, Luís não é o mesmo homem por quem se apaixonou, a guerra mudou-o, desprovendo-o da sua personalidade e tornando-o uma espécie de autómato, uma triste cópia do seu capitão que admira cegamente. Este foi, para mim, um dos pontos fortes do livro, a descrição dos efeitos da guerra num jovem que, antes da guerra era curioso e ambicioso e que, durante a guerra mudou radicalmente na forma de pensar e de agir, como se tivesse sofrido uma lavagem cerebral, tornando-se irreconhecível para a mulher que o amava.

Mas A Costa dos Murmúrios não aborda apenas os efeitos da guerra nos homens que a combateram. Também foca os seus efeitos nas suas mulheres que ficavam para trás, esperando e desesperando pelo seu regresso, de preferência sãos e salvos.

É um livro sobre a estupidez e atrocidade da guerra contado na perspectiva da mulher de um combatente, o que julguei ser uma perspectiva bastante interessante. Julgo que foi mesmo o estilo da escrita que me impossibilitou ter gostado mais da história. Curiosamente, quando comecei a ler não tinha lido a sinopse por isso pensei que o estilo do livro seria o estilo do conto inicial e estava a gostar bastante do mesmo....

Classificação: 2

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Este livro conta para os Desafios Mount TBR 2012, What's in a Name 5 (acidente geográfico) e Spring Reading Thing 2012.

domingo, 6 de maio de 2012

Opinião: "Mão Direita do Diabo"

Autor: Dennis McShade
Série: Peter Maynard #1
Colecção: 9mm nº18
Editor: Público
Edição/reimpressão: Junho de 2005
ISBN: 8498192943
Páginas: 192

Sinopse: Dennis McShade é o pseudónimo de Dinis Machado, o único escritor português da colecção. Autor do célebre romance "O Que Diz Molero" e verdadeiro devorador da literatura policial americana de onde destaca Chandler, o autor de "Mão Direita do Diabo" (1968) conta com o detectiva Peter Maynard para desvendar um caso onde a presença do Diabo parece não andar longe...

A minha opinião: Vou começar a minha opinião com uma breve contextualização (podem encontrar mais informação aqui). Mão Direita do Diabo surgiu publicado, em 1968, pela primeira vez, na colecção Rififi, e foi escrito por Dinis Machado sob o pseudónimo anglo-saxónico Dennis McShade. A Rififi foi uma colecção de livros policiais publicada nos anos 50 e 60 e Dinis Machado não foi o único a recorrer ao pseudónimo para publicar obras, outros autores portugueses também o utilizaram para publicar as suas obras policiais.

O uso de pseudónimos justificava-se, não só porque era mais fácil escapar à censura se fingissem tratar-se de traduções de livros estrangeiros, mas também pela crença de que livros policiais de autores portugueses não teriam procura. Deste modo, para além da utilização do pseudónimo anglo-saxónico, as histórias tinham protagonistas estrangeiros e a acção também se passava no estrangeiro. 

Dinis Machado era um fã dos policiais negros americanos, como os de Raymond Chandler, e nota-se. Tendo lido À Beira do Abismo no início deste ano, foi muito fácil encontrar semelhanças entre ambos. O protagonista de moral duvidosa, mas com um fortíssimo sentido de honra e a depreciação da mulher que serve apenas de escape e porto seguro ao protagonista são apenas dois exemplos de semelhanças que encontrei entre os dois livros.

Mas nem tudo são semelhanças. Em Mão Direita do Diabo, o herói é Peter Maynard, um assassino profissional, contratado para vingar um pai cuja filha se suicidou após ter sido violada por quatro homens, matando esses quatro homens. Uma missão de rotina no início, acaba por se complicar ao ponto de Maynard correr risco de vida. Isto porque o Sindicato (a máfia de Nova Iorque) acaba por se meter ao barulho e o equilíbrio precário entre as actividades do Sindicato e as actividades de Maynard deixa de existir. Mas Maynard tem um sentido de honra muito próprio, e mesmo perseguido pelo Sindicato, insiste em cumprir o contracto até ao fim.

Como já tinha dito a respeito de À Beira do Abismo, não sou particularmente fã dos policiais americanos dos anos 50/60. Contudo, gostei da personagem de Maynard, atormentado por uma úlcera que o força a beber leite constantemente, que lê e cita autores com frequência e fiel às suas convicções. Também gostei do facto de não haver femmes fatales, de que não gosto particularmente...

Em suma, achei uma história interessante e até tinha curiosidade em ler os restantes livros da série, mas como não estão disponíveis na biblioteca, e não me parece que os vá comprar, serão leituras adiadas até uma próxima oportunidade.

Classificação: 2

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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Opinião: "A Torre e a Morte"

Título original: Lament for a Maker
Autor: Michael Innes
Série: Inspector Appleby Mysteries #3
Tradutor: Joel Lima e Cruz Barreto
Colecção: 9mm nº11
Editor: Público
Edição/reimpressão: Agosto de 2005
ISBN: 8498192668
Páginas: 320

Sinopse: Quando o Lord de Erchany, Ranald Guthrie, cai das muralhas do seu castelo, numa noite de tempestade em pleno Inverno, o lendário e perspicaz detective John Appleby é chamado para investigar o caso. Ao longo do livro, são apresentadas várias hipóteses que tentam explicar este estranho "acidente", mas só uma é a verdadeira... A Torre e a Morte (1938) é um dos melhores policiais do escocês Michael Innes (1906-1994), pseudónimo de John Innes Stewart, que não resiste a confundir os factos com elementos fantásticos e surreais.

A minha opinião: Mais um livrinho da saudosa colecção 9mm do jornal Público... A Torre e a Morte conta-nos, como o título indica, a história de uma morte que acontece numa torre (daaah!), mas é nas circunstâncias que rodeiam essa morte que reside o mistério. Terá sido uma queda, suicídio ou homicídio? Cada uma das hipóteses parece ser válida à medida que a história nos é contada por diferentes narradores, todos eles personagens da história e cujos relatos dizem respeito à parte da história que vivenciaram.

Assim, a história é-nos revelada por personagens tão diferentes como Ewan Bell, o sapateiro que cita os escritores antigos; Noel Gylby, um jovem que se vê metido nesta história após um acidente numa noite de tempestade de neve e que se vê forçado a abrigar-se em Erchany onde mantém um diário através do qual ficamos a saber o que passou durante a sua estadia aí; Aljo Wedderburn, o advogado que é o primeiro a formular uma teoria para explicar a morte; o inspector John Applebie que, sem ter sido chamado directamente para o caso, fica tão curioso com o mesmo que não resiste a investigá-lo; e uma outra personagem que não vou revelar quem é porque seria um spoiler.

Como é referido na sinopse, é Ranald Guthrie quem morre na torre. Senhor do castelo de Erchany, tem um feitio detestável que faz com que ninguém na aldeia mais próxima simpatize com ele. A única pessoa que parece gostar dele é Christine Mathers, a sua "sobrinha" (esta é uma questão que suscita dúvidas ao longo do livro, pelo que não vou ser explícita neste ponto), mas esta vê mudanças repentinas no tio que não consegue explicar e que a fazem crer que está louco. Para além do mais Christine está apaixonada, e é correspondida, por Neil Lindsay, descendente da família rival dos Guthrie e, por isso, Ranald é contra o casamento. Na altura da morte existem vários suspeitos por perto, e todos parecem ter motivo.

Não me posso alongar mais sem entrar em spoilers, mas esta é uma história muito densa, recheada de pormenores que, no fim, se entrelaçam perfeitamente. Informações que são casualmente referidas a certa altura acabam por se revelar pormenores essenciais mais à frente, pelo que é necessário ler este livro com uma atenção redobrada. Confesso que gosto mais de histórias com um só narrador, mas gostei deste A Torre e a Morte, gostei de todas as reviravoltas, especialmente as últimas que me fizeram ler sem parar até chegar ao final. Mas teria passado bem com menos ratos, muito menos ratos...

Classificação: 3

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Opinião: "O Último Caso de Trent"

Título original: Trent's Last Case
Autor: E. C. Bentley

Série: Phillip Trent #1
Tradutor: Baptista de Carvalho
Colecção: 9mm nº10
Editor: Público
Edição/reimpressão: 2005
ISBN: 8498192617
Páginas: 224

Sinopse: Philip Trent, um jornalista freelancer, é impelido pelo seu editor a investigar a misteriosa morte do milionário americano Sigbee Manderson, alvejado perto de um campo de golfe. Porém, o que ele descobre nunca chega a ser publicado. O Último Caso de Trent (1912) do jornalista e humorista inglês Eric Clerihew Bentley (1875-1956), é o primeiro policial onde surge a personagem de Trent. Saído da imaginação daquele que é considerado um dos mestres do género policial, Trent é um detective dos tempos modernos, bon vivant, e com gostos caros.


A minha opinião: Quando Trent aceita investigar o assassinato de Manderson estava longe de saber o impacto que essa investigação teria na sua vida. Rapidamente percebemos que ninguém gostava realmente de Manderson, nem mesmo a sua mulher, mas se parecem não faltar possíveis suspeitos, todos parecem ter álibis para a hora do crime... Descobrir o culpado revela-se fácil para Trent, mas a decisão de publicar ou não essa descoberta revela-se bastante mais difícil.


Gostei bastante deste mistério e também do detective. O seu método baseia-se sobretudo na observação, mas também recorre a técnicas mais modernas como a recolha de impressões digitais. O autor foi capaz de manter o mistério até ao fim pois, apesar do nome do culpado nos ser revelado a meio do livro, fiquei sempre com a sensação de que algo não batia certo, de que havia algo mais. O twist final, ainda que não totalmente inesperado, foi muito interessante. Fiquei com vontade de ler mais aventuras de Trent, mas infelizmente não parecem existir mais livros do autor traduzidos para português...

Classificação: 3